Ela continuou, me examinando com aquela intensidade que me fazia sentir um espécime defeituoso.
— Você está muito magra. Está comendo direito?
Essa era a contradição central da minha educação: eu deveria ser magra o suficiente para ser atraente, mas não tanto que parecesse doente. Deveria comer o bastante para demonstrar saúde, mas não tanto que perdesse a forma.
Era uma equação impossível. Uma fórmula que nunca se equilibrava.
Encolhi-me por dentro.
Minha mãe se levantou, foi até a estante e voltou com uma revista.
Folheou até uma página específica, já sabendo exatamente o que procurava. Apontou para uma mulher sorridente em um vestido floral e explicou, com orgulho, que era assim que uma mulher de família devia se apresentar.
— Eu não sou assim, mãe.
Seus olhos estavam carregados de acusação. Afirmou que eu é que estava de má vontade. Insistiu: se fosse preguiça, ela poderia ajudar. Mas se fosse teimosia, o problema era meu.
Expliquei que não era preguiça nem teimosia. Eu simplesmente não era daquele jeito.
Me chamou de antipática, que eu queria que as pessoas olhassem para mim e pensassem que eu era arrogante.
No meu quarto, fechei a porta e fui direto para o espelho.
Me olhei ali: roupa amassada, cabelo desalinhado, expressão carrancuda.
Joguei a bolsa sobre a cama, encostei-me na cômoda e fiquei ali por um tempo, sentindo o zumbido abafado da casa.
Ela tentou. Durante anos, tentou. Eu não sou ela! E nem quero ser. Minha voz saiu mais forte do que eu esperava:
— “Mãe”.
A palavra ecoou no quarto. Pequena. Definitiva.

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