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Aprendendo a Tragar (45)

Agora estava trancada no banheiro, encarando o espelho. 

A luz fluorescente deixava meu rosto mais pálido, mais exposto. Passei a mão pelo cabelo, pela nuca. As mãos estavam frias. A pia, salpicada de gotas, cheirava a sabonete. Como pode alguém se sentir tão velha e tão crua ao mesmo tempo?

Abri o armário do espelho. Dentro dele, o batom que quase nunca usava. Passei devagar. Testei, não gostei. Tirei. Testei outro. Nenhum parecia real, mas todos pareciam possíveis. 

Vesti a roupa escolhida com uma lentidão ensaiada: blusa preta justa, calça escura de vinil, botas de cano curto. O tecido abraçava meu corpo de um jeito que me fazia sentir, exposta e poderosa, ao mesmo tempo. Por cima, joguei uma jaqueta de veludo vinho escuro.

Passei batom pela terceira vez. Limpei. Passei de novo. Minha boca nunca havia recebido tanta atenção. 

Mesmo tendo idade suficiente para ler nas entrelinhas da vida, eu ainda não sabia como me mover dentro do corpo que habitava, muito menos como reagir ao modo como ele pronunciava meu nome entre os dentes.

E era por Ted que toda essa preparação acontecia. Ted, com seu entusiasmo pelos Beatles e aquele jeito de rir com os olhos, não apenas com a boca. 

Eu não queria só agradá-lo; eu queria verdadeiramente arrasá-lo.

Nas saídas anteriores, já havia aprendido a segurar o cigarro, a acendê-lo e a deixar a fumaça sair lentamente dos lábios. Ted, por sua vez, ria, divertido com minha inexperiência, mas era nos olhos dele que uma fome crescente se revelava.

Três semanas atrás, eu nem sabia o que significava querer ser desejada. Agora me arrumava pensando em como eu ficaria ao acender o cigarro. Em como minhas mãos soariam no meu rosto quando a fumaça saísse devagar da minha boca. Em como meus lábios se entreabririam quando tragasse... sem tossir. 

Eu estava me transformando. E essa transformação tinha gosto de tabaco e som de rock. 

Aos poucos, aprendia que ser desejada era um tipo de poder que eu nunca havia conhecido. 

E eu queria mais.

O espelho me mostrava uma Joyce que meus pais não reconheceriam. Batom escuro, olhos delineados, blusa que sussurrava promessas. Uma Joyce que mentia, que fumava, que saía com homens em pubs escuros. Uma Joyce que começava a entender que talvez nunca tivesse sido tão inocente quanto pensava.

Peguei a bolsa. Verifiquei se havia chicletes suficientes para disfarçar o cheiro de cigarro quando voltasse para casa e sorri para o reflexo. Saí do banheiro. A cada passo em direção à porta, sentia que estava abandonando uma versão cansada demais de mim mesma.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

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