Nos encontramos na praça.
Ted estava lá, esperando com um sorriso ansioso e encantadoramente deslocado. Seus olhos mostravam que o mundo era simples. E por um segundo, quase acreditei.
O beijei com firmeza. Ele me tocou de leve na cintura, um toque breve, quase distraído, mas que me incendiou por dentro.
Sentamos num banco de madeira sob a árvore. E antes que ele dissesse qualquer coisa, abri a bolsa.
Meus dedos encontraram o maço.
Tirei um cigarro com cuidado. Ted me olhou, atento. Levei o cigarro à boca com a lentidão estudada de quem tenta parecer espontânea.
Acendi.
Inalei como podia. Senti a fumaça preencher minha boca, era uma presença estranha que não sabia se devia engolir ou expulsar. Expirei pela lateral dos lábios, tentando parecer natural. Ele sorriu. Um sorriso de quem foi tocado no lugar exato.
Quando chegamos ao pub, o ar
mudou. O lugar era uma cápsula de outra realidade. Paredes de tijolo aparente,
palco de ferro fundido, mezanino com corrimãos gastos, teto iluminado por
lustres feitos de garrafas penduradas, tipo candelabros industriais. A luz era
baixa, densa, dourada. Cheirava a cerveja, couro, suor e juventude. Um cheiro
que ainda não era meu.
Sentamos no mezanino, de onde se
via o palco por entre as sombras. Ted falava sobre Blackbird, sobre a
delicadeza da melodia, sobre como a canção era sobre liberdade mesmo parecendo
uma prece. É o tipo de coisa que te arrebenta de dentro pra fora, disse ele,
com os olhos brilhando. Eu ouvi. Mas meu corpo estava em outro lugar. Vibrava
em outra frequência.
Sentia a pele quente sob a roupa.
Sentia o cigarro ainda presente nos dedos, como um prolongamento do desejo de
ser outra. Sentia o olhar de Ted, não invasivo, mas curioso. Ele me olhava como
se eu fosse uma descoberta. E eu queria ser. Queria que, naquela noite, ele me
visse e esquecesse todas as outras mulheres do mundo. Esquecesse Sofia.

Gente ando um pouco doente e cheia de problemas na vida. Por isso sumi um pouco daqui. Mas tem postagens para o ano inteiro. Entra automaticamente uma por dia. Com um pequeno respiro ao final de cada capítulo.
ResponderExcluirEssa é uma das melhores postagens do blog. Estranho o pessoal ter sumido.
ResponderExcluirNestes três meses já tragava naturalmente e com prazer?
ResponderExcluirNa foto, você fumando é mais um ritual pra incorporar a pessoa que você tá querendo ser, ou é tipo um acessório que você usa só pra prender o olhar do Ted?
ResponderExcluirEssa é uma ótima pergunta que toca no nervo da minha insegurança daquela noite! Se você olhar o trecho onde digo: 'era uma presença estranha que não sabia se devia engolir ou expulsar', fica bem claro que de natural não tinha nada! 😂
ResponderExcluirEu estava mesmo atuando ali, tentando desesperadamente parecer que fumava. O prazer veio da ideia de ser aquela pessoa, e não do ato em si. Obrigada pela pergunta, me fez lembrar do quanto eu estava desajeitada!