A banda começava a tocar Come Together quando eu disse que ia ao banheiro. Ted fez que sim com a cabeça, distraído pelo som e pelas luzes que se acendiam no palco. Havia algo em mim, uma urgência performativa, uma necessidade de entrega, que não cabia mais na cadeira estreita do mezanino.
Eu queria vê-lo tremer. Queria ser a imagem que ele guardaria na memória depois do último acorde.
O banheiro era pequeno, com um espelho manchado e o som abafado da bateria atravessando as paredes. Me encarei com atenção. Meus olhos estavam mais escuros do que eu lembrava, pensei será que é o delineador? Passei os dedos pelos lábios, ajeitei o batom.
A excitação me deixava elétrica, viva, feroz. Queria ser desejada com violência. Queria que Ted sentisse o que eu começava a sentir por mim mesma.
Abri a bolsa. Peguei o maço. O cigarro deslizou entre os dedos, tornando-se uma extensão do meu gesto.
Acendi.
A primeira tragada foi encenada. Falsa. Apenas fumei com a boca, igual já tinha feito antes, mas havia algo diferente naquele momento. A fumaça, o espelho, a trilha sonora abafada do pub. Senti que estava me desenhando do zero. Aquele banheiro se tornara o ventre de uma nova versão de mim.
Saí devagar, cigarro entre os dedos, olhos meio baixos, cada passo era parte de uma coreografia íntima atravessando a penumbra, até vê-lo.
Ted estava de pé, perto da grade do mezanino. Quando me viu, congelou.
O olhar dele percorreu meu corpo, parecia que tinha encontrado uma miragem.
Por um segundo, longo, suspenso, deliciosamente cruel, ele não disse nada. Seus olhos estavam dilatados, a respiração entrecortada. Parecia que me via pela primeira vez. Ou como se visse um sonho dele caminhando em minha pele.
Joyce, ele murmurou, e bastava. Eu soube. Eu havia acertado. O cigarro entre meus dedos, a fumaça pairando ao redor da minha cabeça feito uma auréola invertida, tudo em mim era puro fetiche.
Mas aí ele se aproximou, nervoso, sussurrando:
— "Você não pode fumar aqui dentro. Se alguém vê, a multa é altíssima."
A frase foi um tapa.
— "Tá brincando?" — minha voz saiu baixa, irritada. — "Agora que você me diz?"
Ele pegou minha mão com delicadeza e me puxou até a porta de saída. Atravessamos o corredor em silêncio. Meus saltos batiam no chão como pequenas revoltas.

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