Voltei para dentro ainda com o gosto amargo da raiva entre os dentes. O cheiro de cigarro tinha se enroscado no meu cabelo como um lembrete. Me sentia deixada de lado. Estava ali por ele: toda minha encenação, o cigarro, a roupa, o batom, tudo por ele. E ele simplesmente me largara do lado de fora, como se eu fosse só mais uma distração.
Caminhei até a mesa sem sorrir. Sentei. Ted estava lá, os olhos vidrados no palco. Notou meu silêncio e tentou suavizar com um beijo no rosto. Virei o rosto.
A banda tocava Let It Be, como se o universo soubesse exatamente onde doer. Então ele se inclinou até minha orelha, a voz baixa, quase íntima:
— “Sabe, shows de Beatles cover são importantes pra mim.”
Virei devagar, surpresa pelo tom. Ele me olhava sério, sem o tom zombeteiro que usava quando me provocava. Havia algo afundado nele, e senti isso antes mesmo das palavras. Ted quase nunca falava do passado; era como se sua vida tivesse começado no dia em que nos conhecemos.
Disse que conheceu a primeira namorada na faculdade.
Seu primeiro grande amor.
Quando ela terminou, ele desmoronou. Ficou magro. Doente. Assustador, segundo a própria mãe. Lembrou do dia em que chorou no colo dela e pediu ajuda. Precisou de terapia. Meses.
A música ao fundo parecia distante. Era só ele e aquela lembrança agora. Passou a mão pelo cabelo, hesitou.
Ele a acusava de perseguição. Ela sabia que a presença dela o incomodava e fazia questão de aparecer onde ele estava.
Para se afastar, ele buscou novas amizades.
Uma noite, após o término, esses novos amigos o chamaram para uma festa. Ele precisava reconstruir seu círculo social, já que o antigo era inseparável da ex.
A banda da noite era uma cover dos Beatles: Anthology. Ted havia prometido a si mesmo que ela não estragaria aquilo também.
Naquela mesma noite, sua ex estava na casa do novo namorado. Um amigo em comum mencionou, sem querer, o show que Ted iria.
A notícia a atingiu como um raio.
Sem hesitar, ela mandou o namorado se arrumar, exigindo ir também. A discussão foi inevitável, e ele se recusou. Mas ela não cedeu.
Ela, então, vestiu-se e foi sozinha, comprando um ingresso de última hora, pagando mais caro. Ela foi por Ted. Porque sabia que ele estaria lá.
Tempos depois, esse amigo contou tudo a Ted. Cada detalhe.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Por um momento pensou em parar, ir embora, afinal estava num pub, bebendo e fumando por causa dele, coisas que seus pais já mais imaginariam.
ResponderExcluirNão. Nessa época não. Futuramente sim. Já está escrito e programado. Vai entrar em janeiro. Foi a última coisa que escrevi até o momento.
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