A banda no palco tocava Here Comes the Sun agora.
Pela primeira vez na noite, Ted parecia realmente ali.
Realmente comigo.
Olhei para ele com outros olhos.
Sua paixão pelos Beatles deixava de ser apenas gosto: era história.
Não era só música. Era sobrevivência.
A raiva em mim já não tinha espaço. Só um tipo estranho de ciúme. Não da ex. Nem da história. Mas de não ter participado da versão de Ted que ainda não me conhecia.
De não ter sido a causa da cura.
Ele olhou para mim com ternura. Disse que gostava de covers dos Beatles porque o lembravam de que existe vida depois do fim.
Pousei minha mão sobre a dele. Ele apertou com firmeza. Mas, no fundo, mesmo tocada por tudo aquilo, algo me incomodava.
Talvez porque, por mais que eu me esforçasse, eu ainda não sabia se seria lembrada como alguém “depois do fim” ou se seria apenas mais uma entre os intervalos.

E atualmente o que significa fumar para você? Hoje ainda fuma somente pelo Ted? Pensa em parar ou não consegue se imaginar mais sem fumar?
ResponderExcluirHoje fumar é parte de mim, como a pele ou o tom da minha voz. Não é mais sobre o Ted, embora tenha começado nele, e talvez por causa dele eu tenha descoberto esse espelho secreto. Mas com o tempo, a relação se tornou íntima demais para depender de alguém.
ResponderExcluirAmo fumar. Amo o gesto, o reflexo da brasa acesa nos meus olhos, a maneira como a fumaça contorna meu rosto como se me esculpisse. Enquanto eu me sentir bonita com um cigarro entre os dedos, não há por que parar. É vaidade, eu sei. É também vaidade somada a desejo, somada a uma força que só existe quando me vejo refletida naquela fumaça.
Já não penso em parar. Não porque eu acredite ser eterna, mas porque aprendi que certas coisas não precisam de justificativa além do prazer e da beleza que nos devolvem. E, para mim, cada tragada ainda é um lembrete de que estou viva, ardendo devagar, mas do meu jeito.