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Aprendendo a Tragar (53)

Foi antes de Ted. Antes até da pós. Em um daqueles encontros de jovens que minha mãe insistia em chamar de oportunidades para fazer amizades saudáveis.

Eu ainda estava na graduação, me escondendo atrás dos livros de biologia e das roupas que não marcavam o corpo. Não usava maquiagem, falava baixo, evitava espelhos. Não tinha curiosidade sobre mim mesma.

Eu estava cansada da minha própria solidão, mas não sabia como sair dela. Havia dias em que o som dos meus próprios passos pelos corredores da universidade me dava a impressão de que eu era feita de vidro, e que ninguém ousaria me tocar com medo de me estilhaçar. Em outros dias, eu mesma esquecia que estava ali.

Vi o cartaz colado no mural da faculdade. Um folder em tons pastéis, com a imagem de jovens sorridentes de braços entrelaçados. 

Retiro Espiritual Nossa Senhora da Soledade. Partilhas, dinâmicas e momentos de oração. 

Li mais por tédio do que por interesse. Era o tipo de coisa que normalmente eu ignoraria sem culpa. Nossa Senhora da Soledade? Melhor seria São Rafael Arcanjo.

Na semana seguinte, uma colega de sala, voz doce e roupas engomadas, me abordou com um convite. A partida seria na sexta, depois da aula. Eu devia ir. Sorri, como sempre fazia, para não parecer mal-agradecida. Disse que pensaria.

E pensei mesmo. No fundo, eu sabia que não era o retiro em si que me atraía, mas a chance de, por uma noite, fingir que também era uma daquelas pessoas que sabiam conviver, sorrir em grupo, pertencer.

No dia marcado, lá estava eu, sentada em círculo entre meninas, aguardando a van. Elas falavam sobre namoro. Sorri educadamente. Fingi interesse. Para elas, as relações humanas eram dádivas, e não tropeços desajeitados.

Uma delas, com cabelos loiros trançados e uma fé tão impecável quanto os dentes, me cutucou e comentou que um rapaz, Daniel, Rafael, ou algo com "el" no fim, tinha gostado de mim. Ri por educação.

Chegamos a uma pequena chácara cercada por castanheiras. Um lugar simples, de chão batido e varanda de madeira, onde o vento trazia cheiro de mato e eucalipto.

O retiro começou com uma oração coletiva, seguida de cantos que todos sabiam de cor e eu apenas balbuciei. 

Vieram as dinâmicas. Jogos com nomes otimistas, Corrente do Bem, Olhar do Coração, Roda do Afeto, todos com regras simples e objetivos emocionais. O propósito, diziam, era quebrar o gelo.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

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