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Aprendendo a Tragar (54)

À noite, todos estavam reunidos ao redor da fogueira quando um rapaz começou a tocar O Silêncio, da Catedral, no violão. A melodia se impunha a cada acorde.

Alguém então sugeriu o Círculo da Verdade. Aquele jogo onde todos sentavam no chão e uma garrafa girava no centro. Quando parava, o escolhido devia responder a uma pergunta ou realizar um pequeno desafio. Risos nervosos preenchiam o ambiente.

Quando a garrafa apontou para mim, senti o rosto queimar. Não tinha como escapar. Respondi desafio. Não havia nada em mim que valesse a pena contar. O grupo vibrou. Sugeriram que eu beijasse alguém.

Foi aí que mencionaram o nome dele. 

Daniel, Rafael, Gabriel, não importa. 

Ele sorriu com mais insegurança do que entusiasmo. Era alto e magro. Os ombros arqueados carregavam o próprio constrangimento. Ninguém perguntou se eu queria. Apenas riram, incentivando e empurrando com os olhos.

Levantamos e nos afastamos do círculo, sob uma chuva de risadinhas cúmplices. Estávamos prestes a cumprir o rito sagrado.

Caminhamos por um corredor lateral. Eu tive vontade de fugir. Ele disse duas ou três frases ensaiadas, todas começando com um então hesitante e terminando em silêncio. Era evidente que ele também não sabia o que estava fazendo.

E então, o beijo aconteceu. Sem decisão, sem aviso. Um toque de lábios desajeitado, úmido, sem direção. 

Tentei sentir alguma coisa. Juro que tentei. Busquei o arrepio que diziam vir, o calor no peito, o formigamento nos lábios. Mas tudo o que encontrei foi um vácuo. Um silêncio interno tão ensurdecedor quanto o vazio de uma abadia à noite.

Quando ele se afastou, me olhou esperando algo. Um sorriso, talvez. Um elogio, um suspiro. Dei um aceno frágil e voltei para o grupo com um nó na garganta e a impressão de ter feito algo errado, mesmo tendo seguido todos os passos certos.

A sensação era de ter cumprido uma tarefa. Não senti desejo. Não senti nojo. Apenas uma paz mórbida de quem cumpre um dever sem saber por quê.


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

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