À noite, todos estavam reunidos ao redor da fogueira quando um rapaz começou a tocar O Silêncio, da Catedral, no violão. A melodia se impunha a cada acorde.
Alguém então sugeriu o Círculo da Verdade. Aquele jogo onde todos sentavam no chão e uma garrafa girava no centro. Quando parava, o escolhido devia responder a uma pergunta ou realizar um pequeno desafio. Risos nervosos preenchiam o ambiente.
Quando a garrafa apontou para mim, senti o rosto queimar. Não tinha como escapar. Respondi desafio. Não havia nada em mim que valesse a pena contar. O grupo vibrou. Sugeriram que eu beijasse alguém.
Foi aí que mencionaram o nome dele.
Daniel, Rafael, Gabriel, não importa.
Ele sorriu com mais insegurança do que entusiasmo. Era alto e magro. Os ombros arqueados carregavam o próprio constrangimento. Ninguém perguntou se eu queria. Apenas riram, incentivando e empurrando com os olhos.
Levantamos e nos afastamos do círculo, sob uma chuva de risadinhas cúmplices. Estávamos prestes a cumprir o rito sagrado.
Caminhamos por um corredor lateral. Eu tive vontade de fugir. Ele disse duas ou três frases ensaiadas, todas começando com um então hesitante e terminando em silêncio. Era evidente que ele também não sabia o que estava fazendo.
E então, o beijo aconteceu. Sem decisão, sem aviso. Um toque de lábios desajeitado, úmido, sem direção.
Tentei sentir alguma coisa. Juro que tentei. Busquei o arrepio que diziam vir, o calor no peito, o formigamento nos lábios. Mas tudo o que encontrei foi um vácuo. Um silêncio interno tão ensurdecedor quanto o vazio de uma abadia à noite.
Quando ele se afastou, me olhou esperando algo. Um sorriso, talvez. Um elogio, um suspiro. Dei um aceno frágil e voltei para o grupo com um nó na garganta e a impressão de ter feito algo errado, mesmo tendo seguido todos os passos certos.
A sensação era de ter cumprido uma tarefa. Não senti desejo. Não senti nojo. Apenas uma paz mórbida de quem cumpre um dever sem saber por quê.

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