A praça parecia um lugar tirado de outro mundo.
A cidade respirava mais devagar ali. As árvores altas balançavam discretas, parecendo também embriagadas. Pequenas luzes pendiam entre os galhos, douradas, silenciosas, desenhando no escuro o contorno do que parecia um sonho. Bancos de madeira, grama úmida, o som distante de um carro passando, e nós dois, rindo baixo, meio altos, meio soltos.
Ted se jogou no banco com um suspiro. Eu fui atrás, me sentando ao lado, mas não encostada. Havia felicidade no ar, e meu corpo parecia conduzir cada partícula até a pele.
O show ainda pulsava nos meus músculos. O som, a fumaça, os olhares dele. O beijo rápido no corredor. O toque na cintura. A história do colar. O chaveiro no bolso.
Tudo nele me atingia com uma força que não cabia em palavras.
— Foi perfeito — ele disse, olhando o céu.
— Foi — eu murmurei, mas já estava com a bolsa no colo, os dedos procurando o maço.
Meu Marlboro vermelho.
Peguei um. Encostei nos lábios. Senti o toque seco do filtro, o papel encostando na pele com a mesma expectativa que morava entre as minhas pernas.
Ted me olhava de soslaio, com aquele brilho quase reverente.
Acendi. A chama tremulou com o vento leve. Traguei. Ou melhor, achei que fazia como antes. Segurei a fumaça na boca, pronta pra expirar logo em seguida, ensaiando mais uma vez o teatro. Mas o corpo decidiu diferente.
Sem querer, talvez por distração, talvez pela bebida, engoli.
A fumaça desceu feito um raio morno pela garganta. Ardeu, queimou, se espalhou pelos brônquios. Era um amante brutal e essencial. Meus olhos se arregalaram, um reflexo breve, incontrolável. O susto veio com uma vertigem deliciosa, um deleite proibido. Era isso, pensei. Era isso.
Não tossi. Não fiz cena. Apenas fechei os olhos por um segundo. Tudo pareceu vibrar em volta. O vento na pele. A calça colada nas coxas. A brisa nos cabelos. A mão de Ted, que agora repousava sobre o banco, a poucos centímetros da minha. Meu corpo inteiro se acendeu como o cigarro entre meus dedos.
Traguei de novo. Dessa vez, de propósito.
A fumaça penetrou fundo, cortando o caminho com a ousadia de quem sabe onde vai. A resposta veio em ondas imediatas: meu coração acelerou, cada batida era um soco abafado contra o peito. O sangue parecia vibrar, aquecido, apressado. Havia algo de vertiginoso naquela sensação, uma mistura de urgência e prazer, parecia que meu corpo estava agradecendo.
O êxtase veio como um beijo inesperado. Um calor que começou na base da nuca e escorreu pelas costas. Os músculos relaxaram. Mas aquele lugar que vive entre as pernas e os pensamentos, despertou com fúria. Uma euforia súbita, limpa, deliciosa. Era como estar nua por dentro.
O mundo não girava. Ele ondulava.
Fechei os olhos por um segundo a mais, respirando devagar, como se saboreasse um segredo íntimo. Era prazer. Era poder. Um calor que não pedia permissão, só acontecia.
Eu sorri com os lábios ainda entreabertos. A fumaça saía lenta, quase tímida. Me sentia quente, viva, tomada por uma versão de mim que não pedia desculpas.
Ali, sentada num banco de praça, com luzes douradas pendendo do céu e o Marlboro vermelho ardendo entre meus dedos, eu soube: havia me tornado a mulher que eu queria ser.
Ted se aproximou, puxando meu queixo com delicadeza.
Me beijou.
A fumaça ainda entre os dentes. Ele lambeu meus lábios, parecia que queria provar o que havia ali. E havia desejo, havia calor, havia algo que eu não tinha palavras pra nomear.
Minhas mãos foram parar dentro da camisa dele, sentindo a pele quente por baixo. Beijei o pescoço, o contorno da mandíbula, a parte detrás da orelha. Me encaixei no colo dele como se aquele banco de madeira tivesse sido construído para isso.
Ele gemeu baixo.
Minhas coxas apertaram a cintura dele. O cigarro ainda queimava, preso entre dois dedos, equilibrando perversamente a cena.
Sorri. Traguei mais uma vez. A fumaça subiu em espirais lentas. Eu a observei, fascinada.
E pensar que tudo começara de forma tão tímida, tão improvável...

Eu juro que senti essa fumaça descendo, que escrita SENSACIONAL! 🤯 A forma como você ligou o ato de tragar com o despertar do desejo e essa vertigem deliciosa é pura poesia. O Marlboro vermelho virou quase um personagem ali! Que momento de poder. O jeito que você descreve o êxtase e a sensação de se tornar 'a mulher que eu queria ser'. UAU. Parabéns por compartilhar essa experiência tão intensa!
ResponderExcluirGente, a cena da praça, as luzes douradas. o clima já estava perfeito, mas esse momento em que ela TRAGA de propósito e o corpo responde é o ponto de virada que a gente esperava! A química dela com o Ted é palpável, e o beijo final com a fumaça entre os dentes? 🔥 Que finalização de cena, escritora! Essa é uma história real de libertação e autoconhecimento, amei demais.
ResponderExcluirQue texto lindo e corajoso. A descrição do "amante brutal e essencial" pra fumaça e o coração que acelera como um soco abafado mostra o quanto essa experiência foi real e visceral para você. A gente sente junto. É muito mais do que só um cigarro; é a materialização de um desejo que não pedia permissão. A frase 'havia me tornado a mulher que eu queria ser' resume toda a força desse capítulo. Você escreve de uma forma que acende a gente! ❤️
ResponderExcluirEu juro, qnd vc descreveu a fumaça descendo q nem um raio e o corpo acendendo, eu arrepiei aqui. Vc e esse cigarro, nessa praça, se sentindo poderosa Mano, é uma cena q num sai da minha cabeça! O jeito q vc escreve é foda, dá pra senti o calor daqui. Vc é demais.
ResponderExcluirPqp, o Ted é o cara mais sortudo do mundo. Ta ali do lado, vendo vc se transformar na mulher q vc queria ser, bem na hora do fogo Q inveja desse mlk, na moral. Ele é um visionário de te beija logo depois. Se eu tivesse lá, a cena ia ser bem mais longa. Parabéns por ser tão intensa!
ResponderExcluirCara, que delicia essa parte do Marlboro vermelho te acendendo. O corpo agradecendo e o lugar entre as pernas e os pensamentos despertando com fúria. Isso sim é um relato sem frescura. O beijo dele provando a fumaça meu deus, deve ter sido o melhor beijo da vida dele. Vc sabe como deixar a gente querendo mais.
ResponderExcluirNossa JhoYce! Eu achei esse texto mt intriseco, no sentido da abistração q vc ta fazendo. Pq assim, esse tal de Ted ai num é relevante na sua filosofica. A praça é bonita sim, mais oq importa é a sua vibi. A vertigem deliciosa q vc fala é do cigarro, preenche a cabeça evoluido, saca? Vc num preciza se acender com fumaça pra se a mulher. Vc é mt intelegente
ResponderExcluirAcompanho desde o início, nos primeiros posts, quando fumou pela primeira vez embaixo da árvore na praça, sozinha, disse que havia pesquisado na internet como fumar, mas nos relatos seguintes por não estar ainda devidamente a acostumada, mas neste ultimo relato a sensação que passou foi que ali sentia pela primeira vez o prazer de tragar, o prazer inexplicável da primeira vez, foi isso?
ResponderExcluirSim foi exatamente isso e foi diferente de tudo o que eu já havia sentido antes.
ResponderExcluirNa primeira vez, o prazer era mental, simbólico. Era a excitação da transgressão, o arrepio de desafiar o que sempre me disseram para não fazer. O cigarro, naquela tarde na praça, era uma ideia, um ritual e não um prazer do corpo. Eu não sabia tragar; pensei que sabia, mas não. o que me alimentava era a ousadia de estar ali, sozinha, fazendo aquilo.
Mas dessa vez foi outra coisa. Quando traguei de verdade sem querer, quase por acidente o prazer deixou de ser conceito e virou corpo. Senti o calor entrando, descendo pelos pulmões, espalhando-se por dentro com uma lentidão densa, como se o sangue todo tivesse aprendido uma nova língua. Era biológico, físico, químico. Um prazer que não se pensava, apenas se vivia.
O corpo reagiu antes da mente: o peito se abriu, a pele arrepiou, e por um instante senti que estava viva de dentro pra fora. Não era mais o prazer da rebeldia, era o prazer da carne um prazer que o corpo reconhece mesmo quando a alma ainda tenta negar.
Acredito que precisou de um tempo para o corpo acostumar. Para ela aprender.
Eu já tinha tentado tragar antes, mas era forçado pesado, ruim, era só engolir fumaça.
ResponderExcluirDessa vez não pensei, só aconteceu. Foi natural, como respirar.
E o prazer veio do corpo, não da cabeça. Um prazer novo, físico, quente.
Uau, que texto arrebatador! 🖤 A forma como você descreve a fumaça descendo e a sensação invadindo tudo me deixou arrepiada. Dá pra sentir junto, de verdade.
ResponderExcluirQuando você falou me tornei a mulher que eu queria ser, eu parei tudo. Que frase poderosa. Que texto forte.
ResponderExcluirNão sou de comentar, mas esse capítulo me marcou. Senti o coração acelerado com você, como se cada tragada fosse uma descoberta.
ResponderExcluirGente, que relato intenso! A forma como você descreve a sensação da fumaça, o calor, a libertaçãoé quase poético. Deu pra sentir daqui a emoção da descoberta. É incrível como algo que parece tão simples pode ter um impacto tão profundo. Adorei a parte do prazer que não se pensava, apenas se vivia. Me fez refletir sobre outras pequenas transgressões que a gente faz e que trazem um prazer inesperado. Parabéns pela escrita!
ResponderExcluirCaramba, eu me identifiquei DEMAIS com essa parte de 'tragar de verdade sem querer, quase por acidente'. Lembro da primeira vez que aconteceu comigo, foi exatamente essa virada de chave. Antes era só a ideia, a rebeldia, mas depois uau. É uma experiência muito particular, e você conseguiu colocar em palavras de um jeito que poucos conseguem. A química com o Ted e o beijo com a fumaça entre os dentes foi a cereja do bolo!
ResponderExcluirConfesso que fiquei um pouco chocado com a intensidade do relato, mas ao mesmo tempo, é fascinante a honestidade. A descrição do corpo reagindo antes da mente é muito poderosa. É um tema controverso, mas a forma como você aborda a autodescoberta e o prazer físico é bem interessante. Não é algo que eu esperaria ler, mas prendeu a atenção. Continue escrevendo!
ResponderExcluirSempre achei que tragar era só uma questão de técnica, mas seu texto mostra que é muito mais do que isso. É uma jornada de sensações, de autoconhecimento. A diferença entre o prazer mental e o prazer físico foi muito bem explorada. Me fez pensar em como a gente busca essas experiências que nos tiram da zona de conforto e nos fazem sentir vivos. Ótimo post!
ResponderExcluirUhm... ok. Cada um com seu fetiche, né? Mas a descrição é bem vívida, não dá pra negar. Mas, como literatura, é bem escrito.
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