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Aprendendo a Tragar (57)

... As auroras têm uma qualidade fantasmagórica; o mundo parece indeciso entre acordar ou continuar dormindo.

Acordei cedo. Cedo demais para qualquer coisa parecer possível. 

O céu ainda era uma mancha pálida quando o ônibus estacionou, suspirando vapor pelas narinas; resignado ao peso das mesmas rotas diárias. A viagem era longa, descendo curvas que pareciam jamais terminar, enquanto o mundo se desenrolava lentamente diante dos meus olhos. A névoa cobria tudo: árvores, postes, pastos silenciosos. A estrada se perdia entre penhascos e precipícios que surgiam de repente, abruptos, igual a pensamentos perigosos. 

Pegávamos o mesmo ônibus, Ted e eu. 

Primeiro, a coincidência: endereço, trabalho. 

Depois, os acenos, as conversas tímidas, os olhares que não buscavam nada. 

Sua fala era natural, desprovida de pressa. Eu respondia mais com gestos do que com palavras. Seu olhar me traduzia; em seus olhos, eu era um texto que não pedia interpretação. Aquilo me desconcertava mais do que qualquer elogio.

Nunca houve flerte. Só a estranha tranquilidade de estar ao lado de alguém que não exigia nada, e por isso, talvez, me atraía mais do que qualquer outro.

Nunca me achei o tipo de mulher que tomaria a iniciativa. Sempre me vi espectadora. Meu corpo, até então, era uma defesa, nunca um convite.

Naquela manhã, ele sentou ao meu lado. Não havia qualquer insinuação, apenas o acaso da rotina. Estávamos sonolentos, silenciosos. O banco balançava com o ritmo lento das descidas. Os três ou quatro passageiros restantes dormiam. A luz da estrada filtrava-se por entre os vidros sujos. A serra cobria lentamente de luz a madrugada, tendo vergonha da própria nudez.

Foi então que, sem aviso e sem dizer uma palavra, ele encostou a cabeça no meu ombro.

Adormeceu. 

Ou fingiu adormecer, nunca saberei ao certo. Só sei que sua cabeça escorregou lentamente até encontrar meu ombro, e ali ficou.

Ninguém tinha feito isso antes, me usado de apoio, de abrigo. Sua respiração morna atravessava o tecido da minha blusa e chegava até a pele, um calor que se espalhava devagar, sem pedir licença. Fiquei imóvel, respirando com cuidado para não o acordar. Meu corpo, treinado para o distanciamento, não soube reagir.

Mas não havia tensão nele. Nenhum traço de jogo. Nenhum sinal de intenção. 

Só uma entrega simples, natural, como se meu ombro fosse um lugar seguro. Como se ele já estivesse acostumado a mim.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Juro que eu me perdi um pouquinho no começo kkkk. Li a primeira frase sobre a aurora e pensei: ué, ela já acordou depois da praça? 😅

    Demorou uns parágrafos pra eu perceber que é uma continuação da última frase do post anterior (E pensar que tudo começara), só que você voltou no tempo! Adorei a ideia de mostrar como era o Ted antes de tudo, na 'estranha tranquilidade'.

    A cena dele encostando a cabeça no seu ombro no ônibus é de uma delicadeza absurda. Quebra totalmente aquela tensão da praça, mostrando o início de tudo. Essa saga está perfeita, Joyce!

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  2. Agora sim, kkkk! Eu estava achando que tinha pulado um capítulo ou algo assim. 😅 Muito obrigada pela dica, fez toda a diferença pra entender essa volta no tempo. Ansiosa pelo que vem agora!

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  3. Não fui o único. Rsrsrs

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  4. Obrigada pelo feedback! A intenção era justamente dar um salto no tempo para a origem da história, e na leitura completa o fluxo não é quebrado. Vocês têm razão: a confusão aconteceu pela pausa entre as postagens aqui na plataforma. Fico feliz que tenham gostado da cena! Bjs.

    Por favor compartilhem. Precisamos aumentar o número de leitores do Blog.

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