Na quinta, sentei na beirada da cama com a pele ainda marcada pelo lençol. O quarto cheirava a creme e desodorante fresco. Uma luz filtrada pela cortina branca dava ao espelho um ar cúmplice.
Antes de qualquer coisa, abri o navegador do celular. Pesquisei o salão mais ousado da cidade. Liguei. Uma voz masculina atendeu, falando rápido sobre horários disponíveis. Marquei para sexta à tarde.
Queria algo diferente. Algo moderno. Algo que fizesse diferença. O tipo de corte que faria minha mãe prender a respiração e olhar para o chão. O tipo de corte que parecia pedir outro corpo junto. O horário me pareceu solene, como se uma parte de mim estivesse, de fato, decidida.
Desliguei o telefone com o coração disparado. Minha mãe perguntou para quem havia ligado. “Dentista”, menti. Ela assentiu, sem interesse. Meu pai nem ergueu os olhos.
Passei a noite mergulhada em sites de cortes de cabelo, salvando imagens de mulheres com camadas assimétricas, franjinhas desfiadas, cores que fugiam do castanho monótono que eu carregava desde sempre. Cada foto era uma possibilidade. Uma versão alternativa de mim que poderia existir, se eu tivesse coragem suficiente.

a parte de ficar vendo foto no celular a noite inteira é a minha vida kkkk tomara que o corte fique igual as inspirações!
ResponderExcluiramei a descrição do quarto com cheiro de creme, deu pra sentir o clima. texto incrivel, parabens!
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