Na sexta, assim que cheguei do trabalho, entrei correndo no meu quarto. Uma luz dourada atravessava a janela, iluminando as roupas espalhadas sobre a cama.
Separei três conjuntos diferentes, todos rejeitados por serem “demais” ou “de menos”. Minha mãe bateu à porta perguntando se eu não ia tomar café. Respondi que depois. Que tinha coisas a fazer.
Saí com tempo.
Caminhei pelo centro com passos tensos. O endereço anotado num pedaço de papel que eu amassava e desamassava.
O dia estava movimentado: senhoras com sacolas, homens em grupos nas calçadas, crianças correndo entre as pernas dos adultos. Tudo muito normal, muito comum. Mas eu me sentia sobre uma corda bamba.
No caminho, os sinais da cidade se adensavam: faixas coloridas nos postes, picolés escorrendo nas mãos dos infantos, uma música antiga escapando de caixas de som escondidas. Elvis, Chuck Berry, alguma coisa que se dançava com os pés juntos e os quadris soltos.
Os carros, já alinhados como soldados elegantes, exibiam curvas que não existiam mais. Cromados reluzentes, volantes largos, bancos de couro que pareciam suspirar. E Ted gostava deles com um entusiasmo infantil, quase religioso.
Mas não fui ao evento, virei duas ruas depois.
O salão ficava em uma esquina sombreada por duas árvores frondosas. Um toldo escuro protegia a vitrine. A fachada descascada prometia cortes modernos. Observei o interior pelo vidro embaçado.
Entrei com passos contidos. O ambiente tinha cheiro de laquê, couro sintético e café requentado. A atendente, uma bela mulher de meia-idade com busto siliconado, braços tatuados e voz grossa, sorriu com gentileza. “Você deve ser a Joyce”, disse. “Chegou na hora certa.”
O interior era menor do que parecia de fora. As paredes cobertas de espelhos criavam uma sensação de amplitude enganosa; cadeiras de couro gasto, prateleiras cheias de produtos.
Peguei um catálogo de papel grosso. Tremia levemente nas minhas mãos. Folheei devagar. Cada página era uma possibilidade, e uma negação. Meus dedos pararam numa mulher de cabelos curtos, franja caída cobrindo um dos olhos. Ela parecia confiante. Perigosa. Livre.
Ali, cercada de espelhos altos e poltronas pretas com encostos arredondados, não consegui imaginar minha nuca descoberta. Nem o som da tesoura junto à pele.
Uma mulher saiu da cadeira ao lado com o cabelo rente, batom vinho, andar decidido.
Por um instante, quis ser ela.
Mas apenas me levantei, fui até a atendente, agradeci em voz baixa.
— Na verdade... — comecei, e a voz saiu mais aguda que o normal — acho que preciso pensar melhor. Desculpa.
Saí antes que ela pudesse responder, tropeçando levemente no tapete. Murmurei algo sobre remarcar, sobre não ter certeza. Empurrei a porta com mais força do que o necessário e fui para a rua, onde o sol me cegou por um instante.
Na praça, o evento já fervilhava.
Casais de mãos dadas. Crianças fotografando os carros.
Homens de boné conversavam com orgulho diante dos capôs abertos, falando de motores como se falassem de lembranças íntimas.
Voltei para casa com o mesmo cabelo de sempre. Sem pressa.

Uma curiosidade, para estas fotos publicadas, todas tem uma versão original. E neste trabalho da IA, tem alguma que lembre mais a foto real ou ficam totalmente diferentes?
ResponderExcluirSim são aplicados pequenos filtros. Mas não sei explicar pq umas ficam bem mais parecidas do que outras. Acredito que é defeito da IA. Claro que uma roupa diferente e um cabelo diferente já nuda muito agente. E as fotos originais são de anos diferentes.
ExcluirQue texto forte! A simples tentativa de ir ao salão já é uma vitória mental. Gosto do contraste entre a "sensação de amplitude enganosa" dos espelhos e a sua incapacidade de se ver com a nuca descoberta.
ResponderExcluirÉ muito real a sua reação. O medo da "mulher perigosa, livre" que você queria ser foi maior que a vontade. O ato de voltar para casa "com o mesmo cabelo de sempre" e "sem pressa" é a sua forma de recuperar o controle. A jornada não é linear, Joyce.
ResponderExcluiramo como vc descreve as coisas simples. o evento dos carros, o salão, o cheiro do café requentado
ResponderExcluir“quis ser ela” 😢 esse momento me destruiu. todo mundo já quis ser alguém que parecia mais livre.
ResponderExcluirvc escreve com uma calma tensa, sabe? tipo tudo parece simples mas tem um vulcão por baixo. incrível.
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