O entardecer tingia tudo de dourado. O céu, limpo nas bordas, refletia nas vitrines e nos capôs polidos. A luz incidia sobre os carros parados, dando-lhes uma aura serena e intocável, um brilho quieto de uma era que não voltava. O ar era espesso, cheio de sons sobrepostos: risos, o ronco esporádico de um motor, e alguma música antiga escapando de alto-falantes escondidos, com seus violões e metais, e vozes que pareciam gravadas em fita cassete. Cada passo se arrastava, pesado e deliberado, no ritmo da cidade que respirava por dentro da praça.
Ted me esperava perto do coreto, encostado num carro que parecia ter saído de um filme antigo: cromado, estofado vermelho, curvas que demonstravam uma ousadia que o presente não se atreve a lembrar.
A camisa henley preta, com os botões de madeira fechados sobre o peito atlético, moldava os ombros. Os cabelos curtos e bem aparados complementavam a barba escura e cheia, meticulosamente desenhada no rosto. Vestia calça jeans preta, jaqueta de couro preta, e trazia consigo aquele sorriso torto que parecia sempre esconder uma segunda intenção.
Me viu antes que eu o visse. E esperou.
Atravessei os paralelepípedos com a estranha sensação de estar fora de mim. A saia, mais justa do que o habitual. O batom, mais escuro. E o cabelo, ainda intacto, parecia ter sido tocado por uma ideia de mudança. Mas eu já não era a mesma. E sabia disso.
Desde o momento em que deixei a bolsa cair sobre a cama e vesti aquela roupa sem consultar ninguém. Desde o momento em que me olhei no espelho e não pedi desculpas pelo que vi.
Ele me observou chegar sem disfarce. Memorizando cada detalhe. Seus olhos não procuraram decote ou cintura, mas pousaram no rosto. No meu olhar.

Que maravilha que você foi, Joyce! A derrota no salão de beleza se transformou em vitória na roupa e, principalmente, na atitude. O cabelo pode estar "intacto", mas a mulher que o veste mudou. Essa parte de "não pedi desculpas pelo que vi" é a sua liberdade. E o Ted, todo de preto, encostado naquele carro antigo ❤️ A cumplicidade de vocês é palpável.
ResponderExcluirLinda! Obrigado!
ResponderExcluir“desde o momento em que me olhei no espelho e não pedi desculpas pelo que vi” isso me destruiu um pouco.
ResponderExcluir“uma aura serena e intocável, um brilho quieto de uma era que não voltava” é uma das frases mais bonitas que já li aqui.
ResponderExcluiramo como você escreve a cidade como se fosse um personagem. dá pra sentir o entardecer.
ResponderExcluirSua descrição da forma como os olhos dele "não procuraram decote ou cintura, mas pousaram no rosto. No meu olhar" ❤️
ResponderExcluirela não pediu desculpas pelo que viu. acho que nunca mais vou esquecer essa frase.
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