Pular para o conteúdo principal

Coisa de Pele: Iniciando a Vida Sexual (3)

Fui para a cozinha em silêncio. Meus pais já estavam acordados. Minha mãe mexia o café. O cheiro subia como um convite à normalidade. Ao cruzar o corredor, percebi: algo em mim havia perdido o direito àquela mesa. Ela me olhou por um segundo. E, como sempre, viu apenas o que queria ver.

Sentei e tentei sorrir.

Quando levei a xícara aos lábios, percebi o quanto meu paladar ainda estava anestesiado.

O gosto do cigarro ainda ali, invadindo o café, deixava-o insípido, insosso. Açúcar demais. Amargor nenhum.

Era um absurdo: pela primeira vez, o café parecia infantil.

A cadeira parecia menor, desconfortável.

Meu pai lia o jornal. Minha mãe mexia no celular.

E eu, ali, tentando parecer igual, quando cada célula ardia com a novidade do que me tornara. Quando, a cada respiração, sentia a lembrança da noite anterior ecoar no peito.

Terminei o café em silêncio. Voltei ao quarto com passos leves e a mente pesada. A janela ainda entreaberta deixava o vento entrar, suave, e, no entanto, frio.

Vesti-me como sempre, porém com um desconforto novo: a certeza de que não cabia mais naquela roupa, naquela rotina, naquela casa. E ainda assim, continuei o teatro. Limpei a pele. Prendi o cabelo.


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. nossa… esse texto me pegou de jeito. tem algo nessa sensação de não pertencer mais. parece q eu vivi isso hj de manhã :(

    ResponderExcluir
  2. caraaa q escrita linda! simples mas profunda, sabe? essa parte do café sem gosto me deu um nó, pq já senti exatamente isso, como se nada mais tivesse o mesmo sabor

    ResponderExcluir
  3. "algo em mim havia perdido o direito àquela mesa" PUTZ. isso doeu. escreva um livro pls 🙏

    ResponderExcluir
  4. tem uma melancolia tão silenciosa aqui… parece o tipo de manhã em q o corpo tá presente mas a alma tá longe. senti demais.

    ResponderExcluir
  5. me identifiquei dms, principalmente com esse "continuar o teatro". às vezes a gente veste a roupa, o sorriso e pronto… mas por dentro já foi.

    ResponderExcluir
  6. sério msm, q inveja de quem escreve assim, parece q as palavras saem de dentro do estômago e não da cabeça. top demais

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prazer...

Meu nome é Joyce (pelo menos por aqui rsrsrs). Simples assim. Sem segredos no nome, embora eu os tenha de sobra na alma. Tenho entre 30 e 40 anos, e um currículo impecável em todas as áreas que não envolvam vida social. Até os 25 nunca namorei. Nunca fui popular. Nunca fui o tipo de mulher que alguém olha duas vezes na rua e, sinceramente, por muito tempo achei que isso era uma virtude. Fui criada numa família onde aparência valia mais que afeto, e onde ser uma "boa moça" era o destino final, não o ponto de partida. Cresci achando que desejo era uma espécie de doença e que o silêncio era a linguagem mais segura. E talvez tenha sido mesmo. Pelo menos até eu conhecer Ted. Mas não quero parecer trágica. Trágico é o que nunca muda. E eu, bom, eu mudei. Ou estou tentando. É por isso que resolvi contar essa história. Porque às vezes é preciso escrever para entender. E às vezes é preciso acender o primeiro cigarro para, enfim, respirar. [Essa foi a primeira foto que tirei fumando,...

O Dia em que Fumei Pela Primeira Vez (7)

Na volta para casa, depois do almoço, porque na sexta só trabalhávamos pela manhã, passei mais uma vez em frente à tabacaria. Parei por mais tempo na vitrine. É só um maço , pensei. Não significa que vou virar fumante. É só... uma experiência . Mas não entrei. Não ainda . Dei uma volta no quarteirão. A ansiedade aumentava a cada passo, até que, sem nem perceber, meus pés me levaram de volta até a porta da loja. Parei por apenas alguns segundos, respirei fundo e entrei. O coração batia como se eu estivesse prestes a cometer um crime. Lá dentro, o cheiro de tabaco e papel, que eu esperava detestar, me trouxe um estranho conforto. O homem no balcão me olhou com curiosidade discreta. "Boa tarde. Posso ajudá-la?" " Marlboro Light", respondi, com uma firmeza que me surpreendeu. "Maço comum ou carteira?" Não fazia ideia da diferença. "Comum", arrisquei. "Vai precisar de isqueiro?" Isqueiro. Como não pensei nisso? "Sim, por fav...

Bem-vindos ao Novo Lar do Smoking Fetish no Brasil!

 É com imensa satisfação que inauguramos este espaço dedicado a todos os entusiastas e curiosos do smoking fetish no Brasil! Há muito tempo, percebemos uma lacuna na comunidade: o antigo blog "smokingfetishbrasil", embora tenha sido um ponto de encontro importante, foi infelizmente abandonado há anos. Comentários se acumularam, ultrapassando a marca dos 500 em muitas postagens, transformando a discussão em um emaranhado difícil de seguir e participar. Pensando nisso, criamos este blog com um propósito claro: facilitar a reunião e a troca de ideias entre as pessoas . Queremos que este seja um ambiente novo e vibrante onde todos possam se sentir à vontade para compartilhar suas perspectivas, discutir sobre o tema e se conectar com outros que compartilham esse interesse. Nosso objetivo é proporcionar uma plataforma intuitiva e dinâmica, onde os comentários sejam organizados e as conversas fluam naturalmente. Chega de se perder em centenas de respostas; aqui, a interação será si...