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Coisa de Pele: Iniciando a Vida Sexual (5)

Meu pai quebrou o silêncio apenas para concluir que garotas que se dão demais ao espelho perdem a decência, se deixam cair em tentação. Saboreou cada sílaba. Disse que aquilo era da minha natureza; culpa da idade. Eu nunca passara por um despertar; agora, só me restava ficar vulgar. Por fim, acrescentou que talvez eu estivesse me achando bonita com aquele olhar cansado, quando o que eu tinha era só falta de sono.

E então voltou à sua poltrona, satisfeito.

Eu fiquei. Um segundo a mais. Depois outro. O suficiente para sentir o chão se dissolver sob os pés. A casa inteira parecia me observar, cúmplice daquela humilhação cotidiana. Nada reagia. Nem os móveis. Nem o tempo. Nem ela.

Sentei à beirada da cadeira pedindo desculpas pelo próprio corpo. Ouvia apenas o toque intermitente da aliança da minha mãe contra a borda da louça. Batidas ocas, ritmadas.

Não falei. Fingir normalidade era meu único escudo. Já não buscava aprovação. Só sobrevivência.

Deslizei os dedos pelas pernas nuas, onde ainda havia marcas do lençol. O tecido da blusa, que há pouco não incomodava, agora raspava na pele.

Limpei o rosto com lentidão. Não por cuidado, mas por cansaço. Senti cada impureza removida levar consigo um vulto que pesava sobre mim. A presença do meu pai. O silêncio da minha mãe. O cheiro antigo das cortinas. A geometria imutável da mobília.

No espelho, um contorno amorfo. Não feio. Não vulgar. Apenas desconjuntado.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Joyce, é revoltante ler isso. Você merece paz. A forma como você narra o seu esforço para "fingir normalidade" e buscar "sobrevivência" mostra a sua força. Mas essa casa não é seu lugar, e esse sentimento vai passar.

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  2. O toque da aliança da sua mãe... caramba, que detalhe que resume tudo. O fliperama com cinzeiros ótima foto!

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  3. Eu sei como é esse julgamento, Joyce. Eles te forçam a sentir que está vulgar e que você está porque eles estão perdendo o controle sobre você. É isso que os assusta. Você está no caminho certo.

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  4. marta.silveira17 outubro, 2025

    “pedindo desculpas pelo próprio corpo” 💔 nunca li nada tão simples e tão dolorido. me lembrou coisas q eu nem queria lembrar.

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  5. Vocês são a minha força. Obrigada!

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  6. meu deus... esse texto me desmontou. é muito real esse tipo de violência q não grita mas destrói por dentro. vc escreve como quem sangra 😞

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  7. eu fico besta como vc transforma o cotidiano em algo quase físico, dá pra sentir o peso do ar, o cheiro da cortina, o barulho da aliança... genial.

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  8. normal?? mano, isso é abuso psicológico disfarçado de moral. esse texto escancara isso e vc chama de drama? pfvr né

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  9. “ouvia apenas o toque intermitente da aliança” essa frase ficou batendo na minha cabeça. é tão simbólica a cumplicidade pelo silêncio.

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  10. to chorando real. pq é exatamente isso, a gente aprende a pedir desculpa só por existir.

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  11. Joyce, que texto difícil! Meu Deus. Essa sua descrição de "pedindo desculpas pelo próprio corpo" e o "toque intermitente da aliança" da sua mãe... é de partir o coração. A crueldade do seu pai é previsível, mas a omissão da sua mãe é o que realmente afunda a gente. Você não é um "contorno amorfo"! Você é a mulher que está se libertando disso tudo, e isso tem a forma mais linda do mundo. Eles não merecem suas lágrimas. ❤️

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  12. cara, isso é parte de um livro. tem uma coerência entre todos os textos.

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