Virei à direita. Precisava passar pela tabacaria da esquina. O cheiro, o público contido, a sombra que se alongava desde a porta, tudo ali me confortava. Vi um maço pequeno, preto, fino, brilhando na prateleira. Pedi: Dunhill Nanocut. Era o maço mais bonito que já tinha visto.
O parque se estendia generoso sob o sol, um oceano verde onde as árvores antigas faziam sombra como se abraçassem a cidade. Plátanos, paineiras floridas, palmeiras imperiais que observavam em silêncio. Guapuruvus cujas copas se entrelaçavam sobre os caminhos de pedras e flores pisadas. A luz filtrada atravessava a folhagem em manchas douradas e verdes, e tudo parecia suspenso, como se o tempo ali respirasse mais devagar.
Escolhi um banco escondido, recuado, envolto por um véu de folhas que dançavam ao vento. Um santuário improvisado. Ali, naquela penumbra viva, respirei. No bolso do casaco, o maço. Os dedos já conheciam a forma exata. O hábito se adiantava ao pensamento, e o desejo, à culpa.
Peguei meu isqueiro vermelho. Acendi o cigarro. A chama encostou, e a brasa acendeu. A primeira tragada desceu suave, acariciando a garganta, espalhando-se pelos pulmões como uma língua quente e invisível. Fechei os olhos.
A névoa me invadiu. Quando exalei, senti que expulsava junto tudo que havia sido forçada a engolir. Seu sabor era doce, com um leve gosto de chocolate amargo. Um prazer quente, quase úmido, que subia pelas vértebras, apertava o busto sob a blusa, instalando-se na pelve, onde o calor parecia respirar mais fundo.
Cada tragada era uma carícia. Um beijo prolongado entre os dedos e os lábios. O cigarro aceso ali, entre minhas mãos, era mais que um objeto. Era um símbolo. Um falo em brasa, dócil, obediente, mas também perigoso. Eu o controlava. E me deixava dominar por ele. A cada tragada, era como se um outro corpo me habitasse por instantes: mais livre, mais sujo.
O prazer se espalhou pelo corpo como mel morno, descendo pelos quadris, encharcando a virilha com uma lentidão impronunciável. Senti-me úmida. Com vergonha. Com orgulho. A sensualidade do gesto não estava no cigarro, mas no poder de saboreá-lo sem permissão.
Ali, entre árvores que não julgavam, experimentei posse. Meu corpo me obedecia. E eu obedecia a ele.

A vontade de fumar já batia forte né, já não dava mais para esperar e fumar somente quando estivesse com o Ted
ResponderExcluirNossa, parece que a Joyce tá realmente vivendo cada palavra. Me deu até vontade de fumar pra sentir esse misto de culpa e prazer que ela descreve haha
ResponderExcluirA forma como você usa o cigarro para expulsar o que foi forçada a engolir é lindo. Amo quando você descreve esses santuários improvisados!
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