Mas junto com o prazer veio a culpa, lenta, pegajosa, se enrolando ao redor da cintura. A culpa sussurrava com a voz do meu pai: “Menina de esquina.” E o pior: sussurrava que talvez ele tivesse razão. Que talvez eu gostasse disso, de me tornar exatamente o que disseram que eu não deveria ser.
Traguei outra vez. Mais lenta. Mais fundo. O peito aquecia, os olhos marejavam. O cigarro não me anestesiava, me despertava.
Do alto de uma árvore, um pássaro começou a cantar. A melodia simples ecoava entre os galhos. Aquele canto, naquele instante, soava bonito. Era um contraste com a minha pulsação acelerada, com o calor da carne e com a minha imagem, de boca levemente entreaberta, soltando uma espiral de fumaça no ar em uma praça pública.
Estava com medo do vício. Do que me tornara. Pensei em contar a alguém. Ted, talvez. Sofia, nunca. Minha mãe, jamais. Respirei. Dividir esse receio com alguém era impensável, seria como desnudar minha alma. Não era um vício. Era uma semente. Algo que crescia dentro de mim, me separando lentamente do mundo.
Vi crianças correndo do outro lado da praça. Uma menina caiu. Um menino a levantou. Um gesto, simples, automático. Algo que nunca existira no mundo de onde eu viera.
Observei a fumaça subir, uma oferenda lasciva ao céu claro. Cada fio que desaparecia no ar era um lembrete: ninguém saberia. Mas meu corpo, sim.
Terminei o cigarro em silêncio, saboreando a última tragada com a reverência de quem consagra um rito. Joguei-o no chão e o esmaguei com a sola do sapato.
Levantei com lentidão. Caminhei até a fonte. Deixei a água correr sobre meu rosto.
Voltei pra casa marcada pelo prazer: suja de desejo, limpa de mentiras.

q texto forte. não é sobre o cigarro, é sobre o peso de ser mulher num mundo que te culpa por existir. arrepiei.
ResponderExcluir“culpa sussurrava com a voz do meu pai” 💔 essa frase ficou martelando na minha cabeça. tão simples, tão cruel.
ResponderExcluiré incrível como vc escreve sobre o corpo sem precisar ser vulgar. o foco tá na consciência, na descoberta, não no ato. isso é raro.
ResponderExcluir"Suja de desejo, limpa de mentiras." JOYCE, QUE FINAL! Essa frase deveria ser um mantra. É exatamente isso: a culpa é a voz do seu pai, e o prazer é a sua verdade. Você não está viciada no cigarro, está viciada na sua liberdade e no que te desperta. A semente que cresce em você é o seu novo eu, se separando lentamente de um mundo de repressão. O ato de esmagar o cigarro no chão é um rito de passagem poderoso. Você venceu a culpa! ❤️
ResponderExcluirMe identifiquei DEMAIS com a culpa sussurrando a voz do seu pai. É a maior batalha, Joyce! Sua escrita é linda! A fumaça como "uma oferenda lasciva ao céu claro"... essa força é só sua.Você está finalmente aceitando o seu lado "menina de esquina" porque percebeu que isso, na verdade, significa ser mulher, dona do seu desejo. Você está limpa de todas as mentiras que te contaram.
ResponderExcluirDá até vontade rsrsrs
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