O sol se escondia entre as nuvens altas, refletido nas vitrines, nos para-brisas e nas fachadas dos prédios.
Ted me encontrou na saída do trabalho, correndo atrás de mim pela calçada com aquele sorriso torto que fazia meu estômago se contrair.
Falou sobre o encontro anual de carros antigos. Disse que seria interessante, que me encontraria lá. Não houve um convite. Apenas uma menção solta, lançada no final de uma frase. Mas era o bastante. Não importava o que ele dizia, importava o que deixava em aberto.
Divertido. A palavra ficou na minha cabeça durante o resto da semana. Quando foi a última vez que me permiti ser divertida fora dos braços de Ted? Quando saí para algum lugar que não fosse trabalho, supermercado ou biblioteca, sem que fosse com ele?
Minha vida havia se tornado uma sequência de rotinas tão previsíveis que até o espelho do banheiro parecia refletir sempre a mesma imagem: cabelo preso, blusa discreta, expressão contida.
Mas agora haveria Ted, novamente. E com ele, eu sabia, haveria carros antigos, música, pessoas. Haveria a possibilidade de ser vista, realmente vista, por alguém que não fosse meus pais.
Cada encontro com Ted era uma ilha de exceção. Um intervalo luminoso. A ansiedade e a excitação se misturavam no peito como ingredientes de uma receita cujo sabor eu conhecia: pura alegria.

Joyce, sua descrição da "sequência de rotinas" e do espelho que reflete sempre a mesma imagem é muito precisa. É a sensação de que a vida está sendo vivida no modo automático. Gosto de como você capta a sutileza
ResponderExcluir“não importava o que ele dizia, importava o que deixava em aberto” 👏👏
ResponderExcluirvc escreve de um jeito q transforma o comum em algo mágico. tipo, é só uma calçada e um sorriso, mas vira cena de cinema.
ResponderExcluireu amo o jeito q vc constrói expectativa sem drama. é só o cotidiano, mas cheio de pulsação.
ResponderExcluir