Comecei a fumar antes de entrar
no trabalho. No começo, era só para respirar. Chegava alguns minutos mais cedo
e ficava ali fora, sob a sombra torta de um poste, entre o ronco dos carros e o
som abafado da cidade acordando. Não foi uma decisão consciente, aconteceu
naturalmente. Primeiro foi um dia, depois outro, até virar um hábito.
Acendia o cigarro devagar. A
primeira tragada era mais leve. Depois, o corpo se rendia. Era o único momento
do dia em que ninguém me pedia nada. O único em que eu também não me pedia. Só
existia o gosto amargo e doce da fumaça, o calor se espalhando pelo peito, a
brasa viva me lembrando que eu ainda estava ali.
Observava meu reflexo no
para-brisa de um carro estacionado na rua. A mulher que me olhava de volta
parecia diferente da que eu conhecia. Algumas manhãs me perguntava quem era
essa pessoa. A boca entreaberta, o cigarro nos dedos, o olhar sem disfarces.
O cigarro queimava devagar entre
meus dedos enquanto eu observava os passantes. Figuras apressadas,
mulheres com bolsas grandes, homens donos de uma certeza absoluta sobre quem
eram e para onde iam. Eu invejava essa convicção. A cada manhã, eu fumava para habitar esse
lugar. O cigarro aceso, a fumaça escorrendo pelos lábios, o mundo inteiro à
margem por alguns minutos.
E eu olhava para mim no vidro,
tentando entender onde terminava a menina moldada pelos pais e começava a
mulher que se erguia sozinha, toda manhã.
Apagava a ponta com a sola do
sapato. Cruzava a rua com o gosto dele ainda na língua. E entrava no prédio com
o rosto calmo, sem deixar rastro do que acabara de acontecer.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

A nicotina começou a tomar espaço mesmo sem você perceber, primeiro era em momentos casuais, depois vai aumentando, aí já logo pela manhã e vira uma gostosa rotina, só percebemos a necessidade quando naquele momento diário ficamos sem, ou até em um momento de estresse, em que tudo que precisamos é de um cigarro.
ResponderExcluirAnônimo, seu comentário é de uma perspicácia que me toca profundamente. É exatamente essa a sensação, essa dança sutil entre o casual e o que se torna, de repente, uma necessidade.
ExcluirVocê usou a expressão gostosa rotina, e acho que ela resume bem. Não é apenas a nicotina que se instala, mas o ritual. O cigarro se torna a âncora que nos permite aquele momento de suspensão antes de mergulharmos no caos do dia. É o único tempo que nos damos para respirar, para nos reconhecermos no reflexo do carro, como mencionei.
É um lembrete, uma brasa viva que nos diz: Eu ainda estou aqui. E sim, nos momentos de estresse, ele não é um vício, é um porto seguro.
Obrigada por compartilhar sua visão. É reconfortante saber que essa rotina é compreendida por mais alguém.