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A Euforia Pós-sexo (1)

Comecei a fumar antes de entrar no trabalho. No começo, era só para respirar. Chegava alguns minutos mais cedo e ficava ali fora, sob a sombra torta de um poste, entre o ronco dos carros e o som abafado da cidade acordando. Não foi uma decisão consciente, aconteceu naturalmente. Primeiro foi um dia, depois outro, até virar um hábito.

Acendia o cigarro devagar. A primeira tragada era mais leve. Depois, o corpo se rendia. Era o único momento do dia em que ninguém me pedia nada. O único em que eu também não me pedia. Só existia o gosto amargo e doce da fumaça, o calor se espalhando pelo peito, a brasa viva me lembrando que eu ainda estava ali.

Observava meu reflexo no para-brisa de um carro estacionado na rua. A mulher que me olhava de volta parecia diferente da que eu conhecia. Algumas manhãs me perguntava quem era essa pessoa. A boca entreaberta, o cigarro nos dedos, o olhar sem disfarces.

O cigarro queimava devagar entre meus dedos enquanto eu observava os passantes. Figuras apressadas, mulheres com bolsas grandes, homens donos de uma certeza absoluta sobre quem eram e para onde iam. Eu invejava essa convicção.  A cada manhã, eu fumava para habitar esse lugar. O cigarro aceso, a fumaça escorrendo pelos lábios, o mundo inteiro à margem por alguns minutos.

E eu olhava para mim no vidro, tentando entender onde terminava a menina moldada pelos pais e começava a mulher que se erguia sozinha, toda manhã.

Apagava a ponta com a sola do sapato. Cruzava a rua com o gosto dele ainda na língua. E entrava no prédio com o rosto calmo, sem deixar rastro do que acabara de acontecer.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. A nicotina começou a tomar espaço mesmo sem você perceber, primeiro era em momentos casuais, depois vai aumentando, aí já logo pela manhã e vira uma gostosa rotina, só percebemos a necessidade quando naquele momento diário ficamos sem, ou até em um momento de estresse, em que tudo que precisamos é de um cigarro.

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    Respostas
    1. Anônimo, seu comentário é de uma perspicácia que me toca profundamente. É exatamente essa a sensação, essa dança sutil entre o casual e o que se torna, de repente, uma necessidade.
      Você usou a expressão gostosa rotina, e acho que ela resume bem. Não é apenas a nicotina que se instala, mas o ritual. O cigarro se torna a âncora que nos permite aquele momento de suspensão antes de mergulharmos no caos do dia. É o único tempo que nos damos para respirar, para nos reconhecermos no reflexo do carro, como mencionei.
      É um lembrete, uma brasa viva que nos diz: Eu ainda estou aqui. E sim, nos momentos de estresse, ele não é um vício, é um porto seguro.
      Obrigada por compartilhar sua visão. É reconfortante saber que essa rotina é compreendida por mais alguém.

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