Eu andava diferente. Não era um
salto visível, mas algo no andar, no jeito como os ombros não pesavam mais, na
maneira que os quadris balançavam com leveza involuntária. O mundo tinha ganho
outra textura. As esquinas eram menos ameaçadoras. Os espelhos, mais cúmplices.
Pensava em Ted com uma frequência
nova. Não mais uma presença externa, mas algo que já morava em mim. Lembrava do
peso do corpo dele sobre o meu, da respiração descompassada, e sentia o sangue
pulsar de novo.
Fumava todo dia: no caminho de
volta da padaria, do supermercado, do trabalho. Tinha prazer em esconder, em
disfarçar o cheiro. Era um jogo, e eu gostava de jogar. Tragava fundo, sentindo
a fumaça se espalhar com uma autoridade que antes não reconhecia em mim mesma.
O cigarro era meu. O prazer era meu.
Fantasiava com situações onde meu
desejo era comando. Sonhava acordada durante o banho, o corpo ainda úmido,
olhando meu reflexo no espelho com a sensação de que, por alguns minutos, eu
era dona de tudo.
Meus pais notaram. O olhar da
minha mãe começava a se alongar em silêncios. Meu pai franzia a testa sem saber
o que dizer. As perguntas vinham enviesadas: se eu estava saindo demais, se
dormia direito, o que havia naquele perfume. Eu respondia com o que a criação
cerrada me ensinara a dar, um sorriso vago e uma mentira afiada. E eles
voltavam à televisão.
Inventava desculpas para sair.
Troquei algumas roupas do armário. Deixei de atender ligações. Fingia que
esquecia os recados. Aos poucos, as grades que me protegiam tornaram-se cercas
inúteis. Eu queria o risco. O abismo. A vertigem de ser livre.
Estava feliz.

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