Sofia aproximou-se sem que eu a notasse. Quando me dei conta, ela já estava ao meu lado, com um copo idêntico ao meu em uma das mãos e, na outra, o maço de cigarros. Vestia uma blusa preta de mangas longas,
ajustada ao corpo, e uma calça de alfaiataria que marcava o quadril. O batom
era claro. O olhar não.
Cruzou as
pernas com lentidão felina, tirou um cigarro e, por um momento, apenas me
observou.
Puxou o
isqueiro. A chama lambeu a ponta do cigarro. Tragou devagar, deixando que a
fumaça escapasse pelos lábios e subisse em um véu de rendas em dissolução. O
ato inteiro parecia coreografado. Cada gesto havia sido ensaiado mil vezes. Mas
não havia afetação. Apenas controle.
A distância
entre nós era breve. Eu sentia o calor do sol e, ao mesmo tempo, uma brisa que
vinha dela. Um campo de presença, de provocação.
Ela olhava para
frente, mas eu me sentia atravessada.
Aproximei-me em
silêncio. O espaço compartilhado parecia pequeno demais para dois corpos e, ao
mesmo tempo, vasto. Uma fina camada que esticava o tempo. Sofia tragava com um
domínio antigo. Não havia pressa em nenhum de seus movimentos, nem hesitação.
Ela sabia o que fazia com as mãos. E com o silêncio.
Meu peito ainda
pesava. A sensação de fracasso. De não pertencer. De não saber nem por onde
começar. Por mais que me preparasse, errava o básico. Me perdia entre gestos
que os outros executavam com naturalidade. E havia sempre aquele olhar, não
severo, apenas polido demais, que denunciava que não esperavam muito de mim.
A fumaça subia
em espirais lentas, desenhando no ar uma dança hipnótica. Meus olhos seguiam
cada movimento, cada curvatura etérea que se desfazia no espaço entre nós.
Sofia percebeu. Seus lábios se curvaram num sorriso quase imperceptível
enquanto levava o cigarro à boca novamente.
Ela me
ofereceu.
[Sofia]
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

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ResponderExcluirMeu Deus, que mulher! Sofia é o que a gente tenta ser no trabalho: controlada, dona de si, sem pressa.
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