A televisão falava sozinha na sala, uma novela qualquer projetando vozes dramáticas sobre móveis gastos. O controle remoto repousava no braço do sofá, esquecido. A luz azulada piscava nas paredes, criando sombras que se arrastavam.
Na cozinha, tudo seguia o protocolo: talheres alinhados com rigor, pratos sobre a toalha de crochê já desbotada. Minha mãe ajeitava as coisas com a meticulosidade de sempre. Guardanapos dobrados, o saleiro no centro, a pimenteira ao lado, simétrica, silenciosa.
Sentei por último. A cadeira rangeu. A calça apertada demais para o padrão deles. Nenhum comentário. Apenas o som dos talheres batendo no prato e o roçar nervoso dos dedos da minha mãe no tecido do guardanapo. Aparentemente ela tinha esquecido onde deve colocar as mãos.
Meu pai comia em silêncio, até não comer mais. Os olhos ainda fixos no prato quando deixou escapar, num tom neutro demais, um comentário sarcástico sobre meu cabelo.
Sorri. Polida. Contida. Um sorriso que poderia cortar se alguém se aproximasse demais.
A carne era mastigada com mais força. A água escorria da garrafa de vidro num fio contínuo, insistente. Minha mãe evitava o olhar de todos. Meu pai não levantava os olhos.
Eu também não.
A frase seguinte me feriu. Me estigmatizava como vulgar em um tom carregado de puro desdém. Aquilo ficou no ar, latejando. Mastiguei devagar. O silêncio ecoou, mas as entrelinhas, aquelas sim, me atingiram em cheio.
Silêncio.

Joyce, a forma como você descreveu o ambiente da casa é um soco no estômago. A simetria silenciosa da mesa, a novela falando sozinha, e o peso das palavras não ditas são aterrorizantes.
ResponderExcluirEu senti o ar pesado da sua cozinha daqui. A maneira como você descreve a casa os talheres alinhados, o crochê desbotado é perfeita para a descrição da opressão.
ResponderExcluirO silêncio deles é o mais barulhento de tudo. A gente sabe exatamente o que é ser atingida pelas entrelinhas, por aquilo que não precisa ser dito, mas que te atinge em cheio.
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