Pular para o conteúdo principal

Coisa de Pele (29)

O tempo ali dentro parecia mais lento do que no resto do mundo. O velho relógio de madeira marcava as horas com seu pêndulo; indiferente à nossa presença.

Meu pai murmurou mais alguma coisa sobre mulher direita. Não sei se era sobre o cheiro, o cabelo ou a maneira que eu respirava. Não respondi. Ou talvez tenha respondido. Com um sorriso. Aquele que uso para atravessar corredores hostis ou para não chorar quando só quero desaparecer. Um riso sem som, só presença.

Levantei antes que alguém dissesse mais alguma coisa. Levei o prato até a pia. Não lavei. Não pedi licença.

O cheiro velho de verniz pairava pelo corredor. As fotos me acompanhavam como testemunhas silenciosas: eu pequena de fita no cabelo, o sorriso travado do meu pai, a juventude distraída da minha mãe. O piso rangia a cada passo que eu dava, mas não me dei ao trabalho de tentar silenciá-los.

Entrei no quarto. Tranquei a porta.

Tudo no lugar: o lençol rosado, os livros alinhados, o abajur bege. Nada mudava.

Exceto eu.

Abri a janela. A rua estava parada, indiferente. Postes, muros, carros. O mundo seguia sem nos consultar. A brisa tocou meu rosto. Fechei os olhos por um instante, apenas sentindo.

Um casal cambaleava pela calçada em direção ao bar da esquina. Estavam abraçados. Ela parou na porta enquanto ele entrava. Abriu a bolsa, tirou um cigarro. Quando ele voltou com uma garrafa de cerveja, ela já estava no fim.

O quarto parecia menor. O teto tinha abaixado, as paredes estreitadas. O cômodo havia sido feito para alguém que não o habitava.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Joyce quando vc fala "o cômodo havia sido feito para alguém que não o habitava" me deu um frio na espinha. é exatamente essa sensação de não se encaixar mais nos espaços da infância. mt real!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Essa sensação de não caber mais é muito real. Obrigada por sentir junto!

      Excluir
  2. Este texto é sobre a dor silenciosa de crescer e se tornar um estranho para sua própria família. É sobre não caber mais naquele ambiente, mas ainda ser obrigada a performar um papel.
    Gostei particularmente de como a estrutura das frases muda.
    Quando Joyce está na cozinha com a família, as ações são curtas e brutas "Não lavei. Não pedi licença".
    No corredor, a narrativa fica mais lenta e sensorial, cheia de memórias.
    E no quarto, volta a ser fragmentada. Uma aula de mostrar a mente da personagem através da escrita!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que leitura atenta e profunda, Anna! Fico muito feliz que tenha percebido a mudança na estrutura. É exatamente o que senti ao escrever.

      Excluir
  3. A fuga da cozinha (não lavei, não pedi licença) continua no corredor. Quando a Jyce não se dá ao trabalho de silenciar os passos é tipo uma resistência. É um ato de presença quase um confronto silencioso contra a casa que a oprime. Joyce você está está basicamente dizendo "estou aqui, e não vou me fazer de invisível". Achei incrível como esses detalhes se conectam!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Exatamente, Marcos! Essa é a minha forma de dizer "estou aqui". Um confronto silencioso. Obrigada pela leitura!

      Excluir
  4. Esse texto inteiro é uma aula sobre DESCONEXÃO. Da família, do próprio quarto de infância, e até do mundo lá fora indiferente. É a sensação de não pertencer mais a lugar nenhum, nítida demais!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Essa palavra resume tudo: DESCONEXÃO. É o que move o texto. Obrigada!

      Excluir
  5. Achei brilhante como você cria contraste! Primeiro você se entrega ao passado: para, observa as fotos, mergulha naquelas lembranças e DEPOIS reage ao passado: O ranger dos passos se torna um ato quase de desafio ou resignação. A frase "mas não me dei ao trabalho de tentar silenciá-los" soa como uma decisão consciente. É como se você dissesse: "Sim, estou aqui. Estou invadindo este silêncio cheio de memórias, e não vou me esconder."
    O tom fica tão introspectivo e ao mesmo tempo com uma rebeldia passiva incrível. O foco é 100% na reação emocional sua àquele ambiente parado. Perfeito! 👏

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Adoro "rebeldia passiva". Captou perfeitamente o espírito daquele momento. Obrigada pelo elogio e pela sua percepção!

      Excluir
  6. O riso sem som, só presença é a minha tatica de sobrevivência em jantares de familia. É a gente resistindo sem dar o braçao a torcer pro julgamento deles. A sua fuga da cozinha (não lavei, não pedi liçensa) foi um ato herocio! É a sua forma de dizer: o que voses pensam não me controla mais. E o quarto que diminuiu... Meu Deus, que sensassão real. A gente cresce e a casa de ifância vira uma jaúla. Voce precisa sair dai, Joyce. A Sofia te ofereceu a chave (literal e metaforicamenate!).

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É triste mas chega um momento que isso é verdade.

      Excluir
  7. O cômodo havia sido feito para alguém que não o habitava. Que fase, Joyce! Capturou a alma da crise dos 30, 40 quando a gente percebe que o futuro planejado pra nós não cabe mais na gente. Voçe se tornou um estranho na sua propia vida. Amei a cena do casal! É a vida real, imperfeita e com fumaça. Plo favor, me diga que o proximo texto é sobre você se encontrando com a Sofia!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Te entendo perfeitamente. Sim Você acertou. logo aparece por aqui eu e Sofia

      Excluir
  8. A parede de fotos antigas te observando no corredor, o cheiro velho de verniz Esse texto é uma aula sobre a necessidade de desabitar os espaços que nos sufocam.

    ResponderExcluir
  9. A sensação de que o mundo lá fora está parado, indiferente...Você está saindo da tese e entrando na vida. Mal posso esperar pelo encontro! 🔥

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prazer...

Meu nome é Joyce (pelo menos por aqui rsrsrs). Simples assim. Sem segredos no nome, embora eu os tenha de sobra na alma. Tenho entre 30 e 40 anos, e um currículo impecável em todas as áreas que não envolvam vida social. Até os 25 nunca namorei. Nunca fui popular. Nunca fui o tipo de mulher que alguém olha duas vezes na rua e, sinceramente, por muito tempo achei que isso era uma virtude. Fui criada numa família onde aparência valia mais que afeto, e onde ser uma "boa moça" era o destino final, não o ponto de partida. Cresci achando que desejo era uma espécie de doença e que o silêncio era a linguagem mais segura. E talvez tenha sido mesmo. Pelo menos até eu conhecer Ted. Mas não quero parecer trágica. Trágico é o que nunca muda. E eu, bom, eu mudei. Ou estou tentando. É por isso que resolvi contar essa história. Porque às vezes é preciso escrever para entender. E às vezes é preciso acender o primeiro cigarro para, enfim, respirar. [Essa foi a primeira foto que tirei fumando,...

O Dia em que Fumei Pela Primeira Vez (7)

Na volta para casa, depois do almoço, porque na sexta só trabalhávamos pela manhã, passei mais uma vez em frente à tabacaria. Parei por mais tempo na vitrine. É só um maço , pensei. Não significa que vou virar fumante. É só... uma experiência . Mas não entrei. Não ainda . Dei uma volta no quarteirão. A ansiedade aumentava a cada passo, até que, sem nem perceber, meus pés me levaram de volta até a porta da loja. Parei por apenas alguns segundos, respirei fundo e entrei. O coração batia como se eu estivesse prestes a cometer um crime. Lá dentro, o cheiro de tabaco e papel, que eu esperava detestar, me trouxe um estranho conforto. O homem no balcão me olhou com curiosidade discreta. "Boa tarde. Posso ajudá-la?" " Marlboro Light", respondi, com uma firmeza que me surpreendeu. "Maço comum ou carteira?" Não fazia ideia da diferença. "Comum", arrisquei. "Vai precisar de isqueiro?" Isqueiro. Como não pensei nisso? "Sim, por fav...

Bem-vindos ao Novo Lar do Smoking Fetish no Brasil!

 É com imensa satisfação que inauguramos este espaço dedicado a todos os entusiastas e curiosos do smoking fetish no Brasil! Há muito tempo, percebemos uma lacuna na comunidade: o antigo blog "smokingfetishbrasil", embora tenha sido um ponto de encontro importante, foi infelizmente abandonado há anos. Comentários se acumularam, ultrapassando a marca dos 500 em muitas postagens, transformando a discussão em um emaranhado difícil de seguir e participar. Pensando nisso, criamos este blog com um propósito claro: facilitar a reunião e a troca de ideias entre as pessoas . Queremos que este seja um ambiente novo e vibrante onde todos possam se sentir à vontade para compartilhar suas perspectivas, discutir sobre o tema e se conectar com outros que compartilham esse interesse. Nosso objetivo é proporcionar uma plataforma intuitiva e dinâmica, onde os comentários sejam organizados e as conversas fluam naturalmente. Chega de se perder em centenas de respostas; aqui, a interação será si...