O tempo ali
dentro parecia mais lento do que no resto do mundo. O velho relógio de madeira
marcava as horas com seu pêndulo; indiferente à nossa presença.
Meu pai
murmurou mais alguma coisa sobre mulher direita. Não sei se era sobre o cheiro,
o cabelo ou a maneira que eu respirava. Não respondi. Ou talvez tenha
respondido. Com um sorriso. Aquele que uso para atravessar corredores hostis ou
para não chorar quando só quero desaparecer. Um riso sem som, só presença.
Levantei antes
que alguém dissesse mais alguma coisa. Levei o prato até a pia. Não lavei. Não
pedi licença.
O cheiro velho
de verniz pairava pelo corredor. As fotos me acompanhavam como testemunhas
silenciosas: eu pequena de fita no cabelo, o sorriso travado do meu pai, a
juventude distraída da minha mãe. O piso rangia a cada passo que eu dava, mas
não me dei ao trabalho de tentar silenciá-los.
Entrei no
quarto. Tranquei a porta.
Tudo no lugar:
o lençol rosado, os livros alinhados, o abajur bege. Nada mudava.
Exceto eu.
Abri a janela.
A rua estava parada, indiferente. Postes, muros, carros. O mundo seguia sem nos
consultar. A brisa tocou meu rosto. Fechei os olhos por um instante, apenas
sentindo.
Um casal
cambaleava pela calçada em direção ao bar da esquina. Estavam abraçados. Ela
parou na porta enquanto ele entrava. Abriu a bolsa, tirou um cigarro. Quando
ele voltou com uma garrafa de cerveja, ela já estava no fim.
O quarto parecia menor. O teto tinha abaixado, as paredes estreitadas. O cômodo havia sido feito para alguém que não o habitava.

Joyce quando vc fala "o cômodo havia sido feito para alguém que não o habitava" me deu um frio na espinha. é exatamente essa sensação de não se encaixar mais nos espaços da infância. mt real!
ResponderExcluirEssa sensação de não caber mais é muito real. Obrigada por sentir junto!
ExcluirEste texto é sobre a dor silenciosa de crescer e se tornar um estranho para sua própria família. É sobre não caber mais naquele ambiente, mas ainda ser obrigada a performar um papel.
ResponderExcluirGostei particularmente de como a estrutura das frases muda.
Quando Joyce está na cozinha com a família, as ações são curtas e brutas "Não lavei. Não pedi licença".
No corredor, a narrativa fica mais lenta e sensorial, cheia de memórias.
E no quarto, volta a ser fragmentada. Uma aula de mostrar a mente da personagem através da escrita!
Que leitura atenta e profunda, Anna! Fico muito feliz que tenha percebido a mudança na estrutura. É exatamente o que senti ao escrever.
ExcluirA fuga da cozinha (não lavei, não pedi licença) continua no corredor. Quando a Jyce não se dá ao trabalho de silenciar os passos é tipo uma resistência. É um ato de presença quase um confronto silencioso contra a casa que a oprime. Joyce você está está basicamente dizendo "estou aqui, e não vou me fazer de invisível". Achei incrível como esses detalhes se conectam!
ResponderExcluirExatamente, Marcos! Essa é a minha forma de dizer "estou aqui". Um confronto silencioso. Obrigada pela leitura!
ExcluirEsse texto inteiro é uma aula sobre DESCONEXÃO. Da família, do próprio quarto de infância, e até do mundo lá fora indiferente. É a sensação de não pertencer mais a lugar nenhum, nítida demais!
ResponderExcluirEssa palavra resume tudo: DESCONEXÃO. É o que move o texto. Obrigada!
ExcluirAchei brilhante como você cria contraste! Primeiro você se entrega ao passado: para, observa as fotos, mergulha naquelas lembranças e DEPOIS reage ao passado: O ranger dos passos se torna um ato quase de desafio ou resignação. A frase "mas não me dei ao trabalho de tentar silenciá-los" soa como uma decisão consciente. É como se você dissesse: "Sim, estou aqui. Estou invadindo este silêncio cheio de memórias, e não vou me esconder."
ResponderExcluirO tom fica tão introspectivo e ao mesmo tempo com uma rebeldia passiva incrível. O foco é 100% na reação emocional sua àquele ambiente parado. Perfeito! 👏
Adoro "rebeldia passiva". Captou perfeitamente o espírito daquele momento. Obrigada pelo elogio e pela sua percepção!
ExcluirO riso sem som, só presença é a minha tatica de sobrevivência em jantares de familia. É a gente resistindo sem dar o braçao a torcer pro julgamento deles. A sua fuga da cozinha (não lavei, não pedi liçensa) foi um ato herocio! É a sua forma de dizer: o que voses pensam não me controla mais. E o quarto que diminuiu... Meu Deus, que sensassão real. A gente cresce e a casa de ifância vira uma jaúla. Voce precisa sair dai, Joyce. A Sofia te ofereceu a chave (literal e metaforicamenate!).
ResponderExcluirÉ triste mas chega um momento que isso é verdade.
ExcluirO cômodo havia sido feito para alguém que não o habitava. Que fase, Joyce! Capturou a alma da crise dos 30, 40 quando a gente percebe que o futuro planejado pra nós não cabe mais na gente. Voçe se tornou um estranho na sua propia vida. Amei a cena do casal! É a vida real, imperfeita e com fumaça. Plo favor, me diga que o proximo texto é sobre você se encontrando com a Sofia!
ResponderExcluirTe entendo perfeitamente. Sim Você acertou. logo aparece por aqui eu e Sofia
ExcluirA parede de fotos antigas te observando no corredor, o cheiro velho de verniz Esse texto é uma aula sobre a necessidade de desabitar os espaços que nos sufocam.
ResponderExcluirA sensação de que o mundo lá fora está parado, indiferente...Você está saindo da tese e entrando na vida. Mal posso esperar pelo encontro! 🔥
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