O quarto estava escuro. A luz do
poste vazava pela persiana entreaberta, tingindo o chão de dourado. O lençol
sob meu corpo ainda carregava as marcas da tarde: vincos, suor, silêncio. O
abajur apagado, o livro virado de cabeça para baixo na cabeceira. A casa
dormia.
O zumbido da geladeira, o
compasso do relógio, o rangido ocasional da madeira criavam uma sinfonia
doméstica que eu conhecia de cor. Mas naquela noite, cada som parecia
amplificado. A cama não ofereceu o conforto de antes, os travesseiros estavam
duros, o colchão desconfortável.
Pensei no jantar, no que meu pai
havia dito. Pensei em Sofia. Na forma que me olhava, na forma que parecia
confortável em sua própria pele, mesmo quando o mundo ao redor tentava fazê-la
se sentir deslocada. Fechei a porta do quarto com cuidado. A chave girou no
silêncio, em um clique quase imperceptível.
Sofia apareceu primeiro como ausência: o espaço vago que deixava quando saía da sala, o silêncio depois do riso. Depois veio como sombra: as pernas cruzadas, o café nas mãos, o cabelo preso com desleixo estudado. Por fim, veio o cheiro: a blusa preta justa ao corpo invadida pelo tabaco, a transpiração da pele depois de um dia longo.
Ela
não estava no quarto, mas dava a impressão de estar.

Joyce, qdo li a parte da "sinfonia doméstica" eu me arrepiou toda. É EXATAMENTE isso q a gente sente qdo não consegue dormir e cada barulhinho vira um troço enorme na nossa cabeça. Vc descreveu perfeitamente a sensação de que a propria casa vira uma inimiga de noite.
ResponderExcluirÉ um tormento sutil, né? Fico feliz que tenha sentido isso na leitura.
ExcluirJoyce, confesso que fiquei pensando aqui no que te levou a trancar a porta com aquele clique "quase imperceptivel". Pareceu um ato tão simbolico, sabe? Tipo, trancar o mundo e seus problemas (seu pai, as memorias) pra fora, mas ao mesmo tempo se trancar COM a lembrança da Sofia. Muito profundo e triste de alguma forma.
ResponderExcluirExatamente, criei uma bolha. Foi um ato de me proteger e de me concentrar nela. Obrigada pela leitura!
ExcluirNossa Joyce, a forma como vc construiu a Sofia é genial! Ela não é uma pessoa, é uma sensação. Começa por uma AUSENCIA, depois uma sombra e por fim um CHEIRO. Isso é tão real e visceral! A gente conhece alguém muito mais pelos sentidos do que por uma descrição fisica. Amei demais.
ResponderExcluirQue bom que notou a construção! Sofia é mais uma força do que uma pessoa, por enquanto.
Excluircara, Joyce... a ultima frase me pegou demais: "Ela não estava no quarto, mas dava a impressão de estar." Isso é a definição de saudade, de obsessão, de alguém que marca a gente. O quarto vazio mas totalmente ocupado por ela. Que texto incrivel, parabens.
ResponderExcluirÉ o que dói e fascina ao mesmo tempo. Ela ocupava todo o espaço, mesmo longe.
ExcluirJoyce, os detalhes do seu texto são tudo! O lençol com as "marcas da tarde: vincos, suor, silêncio". ISSO! Colocar o "silêncio" como uma marca física, como se fosse um peso, é de uma sensibilidade absurda. Vc não só conta, faz a gente SENTIR a cena. Tá de parabéns!
ResponderExcluirPara mim, o silêncio sempre foi o barulho mais pesado. Fico feliz que tenha sentido essa intensidade.
Excluirjoyce q texto foda mn... mas me conta uma coisa, no final vc tava trancada no quarto pensando nela e tal, mas deu certo? kkkk falando sério agora, esse negocio do cheiro dela de tabaco e suor é mt real, é o que fica mesmo, o cheiro da pessoa. arrepiei!
ResponderExcluirkkkk As coisas nunca são simples, né? O cheiro dela é o que fica na cabeça.
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