Sofia havia se
infiltrado em meus pensamentos. Não conseguia expulsá-la. Não queria
expulsá-la.
Peguei o maço
na bolsa. Sentei-me na cama. Segurei um cigarro entre os dedos da maneira que ela faria,
tentando evocá-la.
Não era
exatamente desejo. Ou talvez fosse, mas em outra língua. Um chamado
subterrâneo, morno, que subia pelas pernas e se instalava no ventre, uma
lembrança que nunca foi vivida. Meus dedos se moveram sem pressa. Sabiam o
caminho antes de mim.
Nunca tinha
pensado numa mulher assim. Nunca tinha deixado. Mas agora, cada curva que minha
mente traçava era dela. A nuca. O pulso. Os ombros firmes sob o tecido. Sofia
fumando e me olhando, sabendo de algo que eu mesma ainda não havia descoberto.
Na cumplicidade
da escuridão, deixei que a fantasia me consumisse.
Imaginei Sofia
me beijando. Seus lábios tinham gosto de transgressão. Suas mãos percorriam meu
corpo com a mesma precisão com que segurava o cigarro. Cada toque era calculado,
deliberado, certeiro.
Minha mão livre
desceu pelo meu corpo. Massageei as dobras com cuidado. Só havia me explorado
assim depois do primeiro cigarro. Cada movimento era uma descoberta. Cada
gemido abafado, uma confissão silenciosa.
O indicador e o
médio desenhavam círculos. Primeiro por fora, depois mais fundo. Puxei, abri,
deslizei, pensando nela. Nos dedos longos, na boca úmida, na fumaça densa entre
nós.
Meus olhos
semicerrados viam apenas lampejos. A boca vermelha. Os olhos escuros. O estalo
seco do isqueiro.
Explodi com a
boca entreaberta. Sem som. Só respiração. O corpo inteiro vibrou e se
dissolveu.
Fiquei deitada,
o suor começando a esfriar. O cabelo colado na nuca. O coração ainda errante. A
respiração acelerada.
Levantei-me da
cama com as pernas bambas. O êxtase ainda vibrava em ondas. Caminhei até o
espelho. A madeira do assoalho sob a sola descalça, o corpo nu ainda úmido, ainda
pulsando. Não acendi a luz. A claridade da rua era suficiente. Bastava ver o
contorno. As sombras.
Peguei o
cigarro do chão. Acendi. Traguei. A fumaça subiu pelo rosto.
Me vi no
espelho.
Meu reflexo me
olhava de volta. Cabelos despenteados. Olhos vidrados. Lábios inchados. Estava
nua, vulnerável, crua. A pele marcada pelos lençóis, o peito arfando, olhos
mais escuros do que me lembrava.
Traguei de novo
sem desviar do espelho. A fumaça formava um véu diante do meu reflexo.
— Você é minha
agora — murmurei para a imagem que me observava.
Meu reflexo
sorriu. Fumei o cigarro inteiro diante do espelho.
Andei nua até a
janela entreaberta. Joguei a ponta do cigarro pela fresta. A rua lá embaixo
dormia em silêncio.
Alcancei o
celular sobre o criado, e a claridade da tela iluminou meus seios enquanto o
trazia para perto. Escolhi Sofia.
"Combinado."
Digitei e enviei.
A resposta veio
de imediato, ela devia estar esperando. Um rosto sorridente, com um olho
fechado.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Joyce, que texto intenso e corajoso. A forma como você descreve aquele "chamado subterrâneo" que não é exatamente desejo, ou é, mas em "outra língua"...
ResponderExcluiré a coisa mais precisa que já li sobre o tesão que a gente não entende, só sente. Arrepiou.
Sim, era uma voz que não dava mais para ignorar!
Excluirnossa joyce, sem palavras. a forma como vc descreveu a cena... não foi vulgar, foi pura poesia corporal. "cada gemido abafado, uma confissão silenciosa". isso é poderoso. é raro ver a auto-descoberta de uma mulher escrita com tanta verdade. obrigada por compartilhar.
ResponderExcluirQue bom que sentiu essa verdade. Foi a confissão mais honesta que já fiz.
ExcluirJoyce, a cena do espelho foi a coisa mais genial. A forma como vc se encara depois do clímax, nua e crua, e aquele diálogo "Você é minha agora". ISSO! É como se vc tivesse se reconquistado através do desejo pela Sofia. O auto-amor e a auto-posse num momento de extrema vulnerabilidade. Simplesmente brilhante.
ResponderExcluirFoi um momento poderoso
Excluirmeu deus joyce vc é foda! kkkk que final! Depois de toda essa jornada interna, a coragem de mandar um "combinado" seco e a Sofia esperando! Isso me quebrou demais! Agora eu preciso da parte 2, preciso saber o que aconteceu depois desse "combinado"! Não me deixa assim não!
ResponderExcluirkkkkk Não podia terminar de outro jeito! A próxima parte vem logo!
ExcluirA Sofia nesse texto é uma presença tão forte que quase da pra sentir ela no quarto com vc. A maneira como vc a evoca através dos gestos (segurar o cigarro como ela), e depois na fantasia. "seus lábios tinham gosto de transgressão"... que linha incrivel. Ela não é só uma paixão, é um símbolo de algo novo e proibido.
ResponderExcluirUm símbolo e uma paixão.
Excluircara Joyce, desculpa a informalidade mas QUE TEXTO FODA. A maneira como vc conecta o ato de fumar com o auto-conhecimento e o desejo é algo surreal. Traguei. A fumaça subiu pelo rosto. Parece que a fumaça era o véu que separava a Joyce de antes da Joyce de agora. Muito, muito foda. Parabens msm.
ResponderExcluirPerfeito.
ExcluirO fetiche e o desejo se tornaram indissociáveis, e a Sofia é a personificação dessa transgressão. Eu amei a frase: "Não era exatamente desejo. Ou talvez fosse, mas em outra língua." É o seu corpo falando a verdade que sua mente de "tese" não queria admitir. A cena no espelho, você nua, crua, com o corpo ainda vibrando, e dizendo "Você é minha agora" é a sua verdadeira iniciação, Joyce. Você não aceitou só o convite dela; você se aceitou. O cigarro no final é um troféu! Que venha o encontro!
ResponderExcluirExatamente isso, Anna. O "troféu" da auto-aceitação.
ExcluirSenti a respiração suspensa lendo. O mais poderoso é como você usou a imagem da Sofia o pulso, a precisão do toque, o isqueiro para se tocar. É um ato de apropriação do poder e da confiança que ela exala. O fato de você se explorar assim, só depois do primeiro cigarro, prova que o tabaco é o catalisador da sua liberdade. Você está se vendo pela primeira vez não como a 'moça direita', mas como a mulher real. E a resposta imediata dela! Ela estava esperando. O jogo começou de verdade
ResponderExcluirO cigarro é meu passaporte.
ExcluirA cumplicidade da escuridão foi o que te permitiu enxergar. O momento no espelho, você se olhando, os "olhos mais escuros do que me lembrava", é o momento em que a Joyce antiga morre e a nova nasce. E o cigarro, fumado inteiramente diante do reflexo, é o seu batismo. Você finalmente se tornou a pessoa que não precisa mais se esconder no armário de materiais. A nuca, o pulso, os ombros firmes. O corpo da Sofia virou o seu mapa de auto-descoberta. "Combinado." Simples. Direto. É o que a vida precisa.
ResponderExcluirA nova Joyce está na área.
ExcluirO poder da auto-exploração é a chave. E a sua, focada na Sofia, mostra que você não está apenas buscando prazer, mas buscando o controle e a segurança que ela representa. O êxtase que vibra em ondas e o coração errante... Você deu o primeiro passo na sua vida sexual de verdade. E o sorriso dela na resposta! É a certeza de que ela sabe exatamente o que está acontecendo. Mal posso esperar para saber onde esse "Combinado" vai te levar. Você está pronta. 🔥
ResponderExcluirEstou pronta!
ExcluirVixi, e eu achando que o foco da Sofia era o Ted, mas acho que ela passou a perna no Ted e foi pro finalmente primeiro, acho que agora tudo caminha para uma história a três.
ResponderExcluirA vida (e o blog) é cheia de surpresas! Acompanhe os próximos capítulos.
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