No bar seguinte, a luz âmbar
desenhava sombras íntimas sobre o rosto de Sofia, e seus dedos, inquietos,
brincavam com a borda do copo de cerveja. Quando começou a falar da ausência da
mãe, sua voz diminuiu imperceptivelmente.
Contou que o pai nunca a enxergara
como filha, mas sim um fardo que a mãe deixara para trás. Lembrou-se de um
Natal, aos cinco anos. Estava feliz por, naquele dia, ter a presença do pai e
quis mostrar um desenho que havia feito. Era uma família: o traço infantil
tentava contornar a ausência, e ela pintara a mãe com um vestido colorido. O
pai olhou o papel, depois olhou para ela, e o que veio foi a voz dele,
cortante. Ele disse que era hora de crescer e parar de dar trabalho, que estava
com vergonha dela. Apenas uma fala entre tantas outras que se seguiram.
Cada crítica, cada comentário
sobre sua natureza barulhenta, desorganizada, excessiva, inadequada, tudo se
empilhava. Com o tempo, o pai construiu ao redor dela um muro invisível de
desaprovação. E ali ela ficou, enclausurada, sem conseguir mostrar o que realmente
era, sem nunca se sentir suficiente.
Não havia drama em sua voz. As
palavras escorriam na cadência de quem revisita um lugar conhecido demais para
causar espanto. Era um abandono antigo, meticuloso, relatado com uma suavidade
quase clínica. O que ainda doía não era o dito, mas tudo aquilo que jamais se
disse. Não doía a lembrança, mas sim o espaço vazio que ela ocupava.
Sofia contou que tinha oito anos
quando parou de perguntar pela mãe. No início, ainda acordava cedo e ia até a janela,
certa de que a veria voltar com sacolas de mercado e o cabelo molhado. Os avós
evitavam o assunto; o avô dizia apenas que nem tudo existe para durar.
Falou de uma tarde em que
encontrou, escondido num armário, um vestido da mãe ainda impregnado de alfazema.
Apertou o tecido contra o rosto e chorou em silêncio. Disse que nunca contou
aos avós.
Depois vieram os homens. Os que
se interessavam por um tempo, diziam que ela era intensa, única, diferente, e
então iam embora devolvendo algo que nunca quiseram de fato. Contou de um, em
especial, que afirmava admirar sua mente, mas que um dia confessou se sentir
exausto. Ela riu, sem humor. Disse que era quase uma piada: ser deixada por ser
honesta. O mundo, talvez, só consiga amar o que é fácil de suportar.
Foi nesse ponto que entendi: o
que Sofia carregava não era apenas saudade ou rejeição. Era a sensação
constante de ser sempre um pouco demais. Intensa demais. Presente demais.
Verdadeira demais. Ela amava com pressa porque vinha de um mundo construído de
ausências.
Disse que Ted fora o primeiro a
não recuar. O primeiro a olhá-la. Um olhar em que aquela desordem toda tinha
lugar. Contou da primeira vez que se abriu com ele. Pela primeira vez, não
sentiu vergonha de sua vontade, de sua presença. Disse que com ele pôde ser
escura, tempestuosa, até incômoda, e ainda assim desejada.
Sofia queria ser lembrada mesmo
quando não estivesse sorrindo. Queria que, ainda que o amor acabasse, alguém
pudesse pronunciar seu nome com ternura. E eu entendi. Porque também viera de
uma casa onde o afeto era um gesto cauteloso.
Ali, entre suas palavras soltas,
havia um espelhamento. Duas mulheres tentando não afundar sozinhas. Ela queria
ser ouvida, queria que alguém, enfim, ficasse. E eu fiquei. Fiquei porque a dor
dela também era minha.

Joyce, eu te amo por escrever isso! 💔
ResponderExcluirMeu coração partiu na hora que ela contou do desenho do Natal. O pai dizer que estava "com vergonha dela"? Eu senti o golpe daqui! É essa rejeição que faz a gente criar essas armaduras, né?
E a parte que vc fala que "O mundo, talvez, só consiga amar o que é fácil de suportar" é a frase do ano. A gente, que é intensa e verdadeira, sempre acaba sendo demais. Mas a culpa não é nossa. Amei o "Duas mulheres tentando não afundar sozinhas". É isso! Vocês se encontraram. Que lindo!
Obrigada pelo carinho. O golpe do desenho doeu em mim também.
ExcluirQuerida Joyce, Este é o trecho mais importante de toda a história, pra mim. A história da Sofia sobre a mãe e o pai é a história de muitas de nós que fomos criadas na ausência e na crítica. O pai dela a construiu um muro invisível de desaprovação. É muito poético e muito doloroso. E a sensação de ser excessiva, inadequada. Eu sinto isso até hoje. Que bom que ela encontrou o Ted mesmo que ele se sinta exausto depois, kkkkk. Mas que bom que ela te contou isso. Você ficou, Joyce! Isso é o que importa. Um abraço apertado em vocês duas.
ResponderExcluirQue bom que você captou a importância.
ExcluirQue tapa na cara! 🥺 Eu amei a sua conclusão: "Ela amava com pressa porque vinha de um mundo construído de ausências." Nossa, isso explica TANTA coisa nas nossas vidas! A gente corre pra amar pra ter certeza que a pessoa não vai fugir.
ResponderExcluirVocê entendeu tudo. E quando a dor dela é a sua, a conexão é pra vida. Perfeito!
É bom saber que você entendeu. A conexão é forte justamente por isso.
ExcluirOi, Joyce! Vim comentar de novo, não aguentei. Eu tive que reler esse parágrafo: "Disse que com ele pôde ser escura, tempestuosa, até incômoda, e ainda assim desejada." Isso é o sonho de toda mulher. Ser amada no caos, não só no sorriso. O que me tocou foi o espelhamento. Vc percebe que não tá sozinha na sua casa de "afeto cauteloso". Onde tem dor em comum, tem ligação forte. Vc ficou porque a dor dela te deu permissão para sentir a sua. Continua, por favor! Queremos saber o que acontece com essa cumplicidade!
ResponderExcluirMenina do céu!!! 😮 a parte mais linda é quando você diz: "E eu fiquei." É isso que a gente precisa. Alguém que não fuja da nossa intensidade. Alguém que queira pronunciar nosso nome com ternura no final. Você capturou a essência da Sofia. O blog é maravilhoso!
ResponderExcluirNunca comento aqui mas hoje precisei. Essa coisa do "espaço vazio que a lembrança ocupa" me destruiu. É exatamente isso, não é o que aconteceu, é o que DEIXOU DE ACONTECER. o amor que a gente não recebeu. a aprovação que nunca veio. sofia/joyce, eu te entendo perfeitamente.
ResponderExcluirgente, eu preciso falar uma coisa: TED EXISTE MESMO??? onde encontramos um ted nesse mundo?? 😭 porque na minha experiência só encontro os que fogem quando a gente é verdadeira... alegem de mim que to emocionada demais
ResponderExcluirEle existe, sim!
ExcluirTo aqui ainda processando. É tanto sentimento que nem sei como comentar. Só posso agradecer por compartilhar isso, Joyce. Me fez me sentir menos sozinha nessa sensação constante de inadequação. 💔
ResponderExcluirÉ para isso que escrevo: para que a gente se sinta menos sozinha na inadequação. Fico feliz que tenha te tocado.
Excluiralguem me explica como a joyce consegue ler minha mente?? sério, to em choque. a parte do "amava com pressa porque vinha de um mundo construído de ausências" EXPLICOU TUDO na minha vida. sempre me perguntei porque eu me apego tão rápido, agora entendi.
ResponderExcluirNossa Joyce, chorei lendo isso. É exatamente o que eu sinto mas nunca soube colocar em palavras. Essa parte de "ser sempre um pouco demais" me pegou demais. Me identifiquei tanto, principalmente com a questão dos homens que vão embora quando a gente mostra quem realmente é. 😢
ResponderExcluirA conclusão é brilhante. A linha "Porque também viera de uma casa onde o afeto era um gesto cauteloso" transforma a narrativa. Não se trata mais de uma pessoa ajudando outra, mas de duas almas náufragas se encontrando no mesmo oceano de dor.
ResponderExcluirA fala "O mundo, talvez, só consiga amar o que é fácil de suportar" é uma crítica social aguda. Questiona a nossa capacidade coletiva de lidar com complexidades emocionais, traumas e verdades incômodas.
ResponderExcluirFiquei emocionada com a sensibilidade dos comentários. É bom saber que minhas palavras encontram eco na história de vocês. Infelizmente não vou poder responder a todos mas fico muito contente. continuem escrevendo por favor.
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