Ao fim daquele dia exaustivo, a
cidade inteira se arrastava. Lenta, indiferente. Mas então vi Ted subir no ônibus.
Sentou-se ao meu lado. Os ombros duros, o olhar cabisbaixo. Eu soube que havia
algo errado antes mesmo de ele se virar.
E então contou: a recepcionista
do hotel ligara para o trabalho naquela manhã. Disse que a pernoite não havia
sido paga por completo. Ele pensou, por um instante, que a ligação fosse sobre
o short que eu tinha deixado no quarto, mas não.
Na noite anterior, Ted me
entregara o dinheiro para pagar a pernoite. Fui até o balcão sozinha. A
recepcionista cobrou apenas o valor de um hóspede, talvez imaginando que ele
desceria depois para acertar a parte dele. Eu, confusa, pensei que estivesse
pagando pelo quarto inteiro.
Tentei explicar, dizer que me confundira, que não entendi direito. Mas as palavras saíam curtas, ansiosas, inúteis. Ele me olhava com estranheza. Disse que, mesmo que o valor tivesse ficado menor, eu devia ter contado, devolvido a diferença. Que não se fazia isso. Que ele tinha perdido a confiança.
A mágoa na voz dele era de um tipo que eu
não conhecia: dura, contida, e justamente por isso mais cruel.
Quando ele desceu do ônibus, não
olhou para trás.
A cidade escurecia do lado de
fora da janela. Tentei entender como tudo tinha dado tão errado. Como eu, sem
perceber, consegui estragar tudo.
De madrugada, o celular vibrou. Apenas uma mensagem: "Saudades".
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."
A errada é você, Joyce. Ponto. Ele te deu o dinheiro pra uma finalidade. Se custou menos, a diferença é dele. Ficar com o troco sem falar nada é quebra de confiança sim. Ainda bem que ele mandou mensagem depois, mostra que ele é muito mais maduro.
ResponderExcluirÉ duro de ouvir, mas você tem razão.
ExcluirAchei fascinante a construção da cidade indiferente refletindo o estado de espírito de vocês no ônibus. Há um contraste brutal entre a 'performance' que você descreveu nos posts anteriores, a femme fatale fumando, a musa do carro antigo,e essa menina insegura e confusa com a conta do hotel no final. Parece que a personagem que você criou para agradá-lo desmorona diante da realidade prosaica do dinheiro. Texto fortíssimo.
ResponderExcluirAnna, sua análise é impecável e dolorosamente verdadeira.
ExcluirA frase A cidade escurecia do lado de fora da janela servindo como metáfora pro fim da ilusão foi perfeita. Você escreve a dor com uma elegância que machuca e cura ao mesmo tempo. Ansiosa pelo próximo capítulo e pelo novo título!💔
ResponderExcluirKarina, muito obrigada pelas palavras gentis sobre a escrita. É reconfortante saber que essa sensação de "fim da ilusão" passou para vocês através do texto. Essa dor está sendo fundamental para a próxima parte da história. O título novo já está na minha mente, e o próximo ciclo começa em breve.
ExcluirObrigada por lerem o final deste capítulo.
ResponderExcluirObrigada por estarem comigo nesse processo! Joyce.