Naqueles dias, acreditava, de verdade, que eu era aquilo que eu parecia ser. E em outros momentos, tudo me parecia um teatro. Uma encenação feita para que o mundo me aceitasse, ou, ao menos, me notasse. E eu me perguntava: quem seria eu sem plateia? Sem Ted, sem Sofia, sem o espelho? Quem era eu quando ninguém estava olhando?
O sol atravessava os galhos da árvore e riscava minha pele com pequenas sombras.
Será que eu tinha me traído ao tentar ser o que esperavam de mim? Ou será que tinha me encontrado, finalmente, em meio àquilo que fingia ser? A ideia me doeu.
Talvez eu tivesse fugido de mim ao me tornar aquela versão mais atraente, mais misteriosa, mais desejável. Talvez eu tivesse aceitado que ser vista valia mais do que estar segura. Mas na segurança só existe a menina que nunca fora tocada.
Encostei a cabeça no tronco e fechei os olhos. Senti a brisa brincar com meu cabelo. Por um instante, desejei não ser nada.
O sol já estava baixo quando ouvi os passos. Um ritmo calmo, firme, que se aproximava sem pressa. Abri os olhos, e lá estava Ted, a luz dourada recortava seus ombros. Ele se sentou ao meu lado, em silêncio, e estendeu um copo fumegante de café. O vapor subia, aquecendo meu rosto. Ele deixou o isqueiro no meu colo.
Ficamos algum tempo apenas com o som do vento.
— Tem dias em que sinto que todo esse palco está me consumindo — murmurei. — Apenas uma personagem perdida no roteiro de outra pessoa. Temo que, quando tirar todo esse figurino, não tenha nada lá.
Ted mexeu o café devagar. Olhava à frente, por entre as árvores. Comentou que a questão era, na verdade, descobrir quem eu era.
A pergunta soou tão simples que doeu.

Ted teve sensibilidade neste momento, sabia que precisava de um café e do seu isqueiro. Se puder posta ali quadro da foto real.
ResponderExcluirBem, eu deixei o isqueiro com o Ted e saí dizendo que precisava fumar. Foi praticamente uma convocação.
ResponderExcluirP.S.: A foto original está numa resolução muito baixa e estourada por ser noturna. Não vou postar, não.
A frase "na segurança só existe a menina que nunca fora tocada" me pegou de jeito. É tão fácil idealizar a inocência, mas é na coragem de viver e ser vista que a gente se constrói, mesmo que a gente se sinta traída no processo. Se tornar a versão mais atraente, misteriosa e desejável não é, necessariamente, uma fuga, mas uma evolução.
ResponderExcluir