O calor se instalava de dentro pra fora. A noite seguia calma, solicita ao que acontecia no banco de madeira.
O L.A Cereja veio logo depois, e com ele, uma leveza debochada, doce. O gosto dançava na boca antes mesmo da fumaça chegar. E quando chegou, foi com a delicadeza de um beijo molhado. Traguei e deixei que o prazer falasse por mim.
Ted se aproximou um pouco. Apenas o suficiente para que eu sentisse o calor do corpo dele sem o tocar. Meu joelho roçou na sua coxa e permaneceu ali, testando as fronteiras da decência. A fumaça agora saía mais fina, mais suave. Mas dentro de mim, tudo era pulso e tensão. O desejo não fazia barulho, apenas acontecia.
Falávamos de bobagens, livros, lembranças vagas, a vez em que ele perdeu a carteira e jurou ter sido num lugar que nunca existiu. Mas cada palavra era pano de fundo para o que, de fato, acontecia: os olhos dele nos meus. A minha boca envolta em fumaça. O som da brasa crepitando calada.
Eu ouvia mais do que respondia. Traguei de novo, agora com a lentidão de quem saboreia. O sabor de cereja preenchia a boca antes da fumaça tocar os pulmões. Uma doçura quase artificial, mas perfeitamente colocada. Ted me olhava com aquele sorriso discreto, apreciando uma arte sem saber se pode tocá-la.
Inclinei o rosto para o lado, soltei a fumaça na direção dele. Foi um sopro macio, redondo, e ele nem sequer piscou. Apenas deixou que ela passasse por entre nós dois, deixando o ar mais espesso, mais íntimo.
— Tem gosto de quê? — ele perguntou.
Sorri. Não respondi. Apenas levei o cigarro de volta aos lábios, traguei com mais intensidade e expirei, dessa vez com os olhos fixos nos dele, dizendo "prova".
Ele veio devagar, quase hesitante, mas firme. A mão tocou minha nuca, quente, decidida. O beijo aconteceu no tempo exato entre uma tragada e outra. Os lábios dele encontraram os meus com urgência abafada; algo ali já tinha sido adiado demais. Beijei de volta sem pensar. O cigarro ainda aceso entre os dedos; o gesto também parte do beijo.
Ele sorveu meu gosto. Meu batom. Minha cereja. Meu remanso.
Quando se afastou, os olhos estavam mais escuros. O corpo dele, mais próximo. E a noite, de repente, mais curta.
Traguei uma última vez e joguei a bituca longe, observando a brasa apagar no chão. Meu coração ainda batia fora do ritmo.
Nos entreolhamos.
Levantei primeiro. Alisei o vestido com a palma da mão, coloquei o maço de volta na bolsa. Ele veio atrás, sem nada dizer. E juntos, começamos a caminhar pela rua estreita que levava ao bar.

L.A. Cereja! Você desbloqueou uma memória absurda agora. Isso era febre. Consigo sentir o cheiro doce misturado com o tabaco só de ler. É o cigarro perfeito pra esse momento de flerte, né? "Uma doçura quase artificial", você definiu perfeitamente. O contraste desse gosto doce com a tensão sexual do momento deve ter deixado o Ted louco.
ResponderExcluir"Prova". Essa atitude de exalar olhando no olho e desafiar ele a sentir o gosto, arrepiei aqui! É o auge da provocação. Eu adoro fazer isso misturar o meu batom, o gosto do cigarro e a saliva. É um gosto que vicia. O detalhe de alisar o vestido depois, como se nada tivesse acontecido, foi o toque final de classe.
ResponderExcluirA melhor frase do texto: O cigarro ainda aceso entre os dedos; o gesto também parte do beijo. Isso é arte pura. A adrenalina da brasa ali pertinho da nuca dele e do seu cabelo, enquanto vocês se beijam poucas coisas são tão eróticas.
ResponderExcluirVocê não apenas fumou, você envolveu ele na sua atmosfera. Quando a mulher sopra a fumaça na cara do parceiro e ele não pisca, aceitando passivamente, a gente sabe que ela ganhou o jogo. Cena linda.
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