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A Euforia Pós-sexo (17)

O bar nos engoliu numa lufada de vozes abafadas, fumaça e luzes cansadas, uma caverna morna que contrastava com o silêncio persistente do parque e o asfalto da rua que ainda se agarravam à minha pele.

Sentei no balcão, a madeira fria sob minhas mãos. Um copo apareceu sem que eu precisasse pedir, e observei a espuma se dissolver devagar, formando anéis concêntricos na superfície dourada. As paredes, atulhadas de cartazes desbotados, sussurravam promessas de um rock antigo, cuja batida eu sentia, abafada.

Ted falou de bandas antigas que eu não conhecia. Mencionou capas de discos e shows assistidos no YouTube às três da manhã. Os nomes soavam familiares, envoltos na voz baixa, embriagada de nostalgia. Eu o ouvia com atenção e a cabeça ligeiramente inclinada.

Olhando para o fundo do segundo copo de cerveja, onde pequenas bolhas ainda subiam preguiçosas, falei que talvez aquele bar, com seus cartazes tortos e sua luz cansada, já tivesse assistido a muitas noites iguais a nossa. Ele riu e concordou, mas acrescentou que, comigo, o lugar parecia menos decadente.

Meu olhar vagava preguiçoso pelas paredes quando ele apontou, com um gesto mínimo do queixo, uma capa de disco torta, presa por tachas velhas no compensado descascado. Mostrava uma figura feminina misteriosa, vestida com um manto escuro, parada em frente a um moinho de água antigo. O título em letras gordas, pretas, quase góticas: Black Sabbath. Ele disse que não era fã, mas era inegável que aquele disco era um dos mais importantes da história do rock, pois havia sido a pedra fundamental do heavy metal.

Disse que foi ali, com aquela banda de operários, que a música começou a falar uma linguagem diferente. Que o heavy metal nasceu mais por acidente do que por intenção. Um som arrastado, denso, que não queria agradar ninguém.

Contou que o som pesado veio de um erro de percurso. O guitarrista tinha perdido as pontas dos dedos numa máquina de fábrica no seu último dia de trabalho e, para continuar tocando, criou suas próprias próteses rudimentares com plástico derretido e pedaços de couro. Para compensar a dor e a dificuldade, ele afinou tudo mais grave, criando um som mais pesado, denso e sombrio. Assim, a lentidão virou estilo. E Ozzy, com aquela voz de possessão mal contida, não fazia mais do que dar forma ao que já estava ali: uma música que parecia ter saído do subsolo, feita de poeira, fumaça e ferro retorcido.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Joyce, sua escrita amadureceu muito, mas mantém essa visceralidade fascinante. É muito interessante essa analogia que o Ted fez, e como você a absorveu. A gênese do Heavy Metal ser industrial, feita de "fumaça e ferro", dialoga perfeitamente com a estética do nosso fetiche. Não é apenas sobre o tabaco, é sobre o denso, o urbano, o "sujo" que se torna prazer. A maneira como você descreveu o bar como uma "caverna morna" me remeteu a uma espécie de útero enfumaçado, onde o tempo (e a moralidade lá de fora) não entram. Texto belíssimo, querida.

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  2. AAAAA Joyce, eu SOU você todinha nessa cena!!! 😍 Sério, eu tenho um fraco gigante por homens com essa paixão toda. Fico imaginando você ali no balcão, toda linda, ouvindo ele falar do Ozzy. Eu teria aproveitado que o bar já era meio luzes cansadas e fumaça pra acender um cigarro bem devagar enquanto ele falava. Tem coisa mais sexy do que fumar bebendo cerveja num bar? Não tem! Tô amando a história, me sentindo lá com vocês! ❤️🚬

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  3. A história do Tony Iommi é clássica. Ouvir Black Sabbath sem um cigarro na mão parece até errado.

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  4. Gosto de como você descreve a sedução intelectual. Antes foi o corpo na praça, agora é a mente no bar. Eu o ouvia com atenção e a cabeça ligeiramente inclinada. Com certeza isso deixava o Ted louco

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  5. Black Sabbath... "música feita de poeira e fumaça". Acho que é por isso que tantos de nós gostamos de rock. Combina com o ritual.

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