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A Euforia Pós-sexo (18)

Ted parecia um apóstata reconhecendo a sacralidade de seus templos. Eu ouvia sem comentar, tragando em silêncio meu L.A. Cereja, soltando a fumaça que se dissolvia entre nós. O gosto adocicado soava dissonante contra a rispidez da cerveja e a aspereza da história.

Traguei mais uma vez, com o corpo ligeiramente curvado sobre o balcão, deixando que a nicotina amornasse meu sangue. A fumaça saiu pelas narinas, densa e lenta. Ele me observava enquanto falava, seus olhos acompanhando o movimento dos meus lábios, a forma como eu segurava o cigarro entre os dedos. Gestos que pareciam ter ganhado uma importância desproporcional na geografia íntima que se desenhava entre nós.

Falei pouco sobre mim nessa noite, apenas que gostava de manhãs chuvosas. Disse a Ted que havia algo nelas que me acalmava, quando o mundo parecia desacelerar e ganhar uma melancolia doce. Que sentia algo em comum entre o bar e a música produzida pelo ruído das gotas de chuva no vidro da janela: a sensação de que o tempo suspendia seu curso habitual.

O bar parecia mais cheio agora, mas apenas na borda da minha visão. Tudo que realmente importava cabia no espaço mínimo entre nós dois. Deixei os dedos deslizarem pelo vidro gelado do copo vazio, depois pela borda áspera do cinzeiro de alumínio.

Ted pediu mais duas cervejas com um aceno quase imperceptível ao garçom. Quando os copos chegaram, ele ergueu o seu numa espécie de brinde silencioso. Eu respondi ao gesto, e por um instante nossos olhares se encontraram por cima das bordas geladas.


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Joyce, a forma como você descreve o gesto de fumar transforma algo cotidiano em um ritual quase íntimo. Fiquei com a impressão de que o que não foi dito era ainda mais intenso do que as palavras.

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  2. Joyce, adorei a maneira como você conecta a chuva, o bar e o tempo suspenso. Há uma melancolia confortável aí, quase um refúgio. É bonito ver como você se revela pouco, mas o suficiente para nos deixar curiosos.

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  3. Há algo muito honesto na sua narrativa. Não parece um esforço para seduzir, mas acaba seduzindo justamente por isso. A cena cresce devagar, como a fumaça que você descreve e isso prende.

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  4. Joyce, lendo com atenção, o que mais me chama é como você usa a música como um campo de tensão, e não como identidade fixa. Na frase “Ted parecia um apóstata reconhecendo a sacralidade de seus templos”, vejo isso com muita clareza: ele fala de Black Sabbath e do rock pesado como quem observa algo que não lhe pertence, mas que ainda assim respeita profundamente. Não é devoção, é reconhecimento. Há ali alguém que não habita aquele templo, mas entende seu peso simbólico. Isso torna a conversa mais interessante, porque revela mais sobre Ted do que uma simples confissão de gosto musical ele se define justamente pelo limite, pelo que admira sem adotar.

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  5. Joyce, eu me vi completamente aí. O jeito como você descreve segurar o cigarro, a atenção que isso desperta, essa consciência do próprio gesto. Não é só fumar, é ocupar o espaço, é saber que o outro está vendo e sendo afetado por isso. Obrigada por colocar isso em palavras sem pedir desculpa por sentir prazer nisso.

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