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A Euforia Pós-sexo (19)

Foi então que ele comentou, sobre um pub que só abria às onze. Um lugar de fama antiga e fila na porta. Para ele, era simples, uma continuidade natural do nosso encontro.

Sorri, mas já sentia meu corpo se retraindo involuntariamente. Dez e vinte. Fiz os cálculos: se saísse naquele momento, chegaria em casa antes das onze. Mas Ted parecia determinado a estender a noite.

— Acho que hoje não vai dar… é meio caro.

Ele sorriu de uma maneira desarmante e disse que cobria meus gastos.

Meus dedos apertaram o copo ainda úmido. Havia algo de cruel naquela generosidade espontânea. Quis dizer que não era só o dinheiro, que não era o valor. Mas preferi outro atalho.

— Não precisa… sem contar que o frio já está apertando, e minha jaqueta é fina.

Ted tirou a blusa sem hesitar e me entregou. Peguei o tecido ainda morno do corpo dele, sentindo o cheiro que me envolveu e me fez imaginar acordando com aquele perfume no travesseiro.

Como explicar que, aos vinte e sete anos, eu ainda precisava estar em casa antes das onze para evitar o interrogatório? Como dizer que minha vida adulta era uma encenação delicada, prestes a ruir se meus pais soubessem onde eu estava, com quem, fazendo o quê?

— Não, é só que… — olhei para minhas mãos — Acho que já bebi demais. Talvez seja melhor eu ir.

Mentira sobre mentira. Era mais fácil fingir embriaguez do que confessar que vivia com um cronômetro cravado no corpo. Ele respondeu que eu podia beber só refrigerante, que até ajudaria a passar o efeito da bebida.

— Amanhã acordo cedo — tentei de novo. — Combinei de sair com a minha mãe.

Ele insistiu que ainda era cedo, que ficaríamos só um pouco.

— Tá. É que hoje… hoje simplesmente não é a noite.

Vi nos olhos dele a confusão, e aquilo me partiu ao meio. Ele não podia imaginar a outra Joyce. A que entraria em casa pisando leve, torcendo para que a luz do corredor estivesse apagada. A que teria que encarar o silêncio pesado do pai no sofá e a acidez das perguntas da mãe. A que tirava o salto antes da escada.

Beijei o canto da sua boca; agradecida e culpada ao mesmo tempo. Devolvi a blusa. Sabia que ele não acreditava inteiramente, mas também não queria me expor mais. Para Ted, eu era uma mulher inteira, dona das próprias decisões. E eu odiava ter que desmontar aquela imagem.

Ele desistiu e se ofereceu para me levar para casa, com a voz carregada de uma decepção tão sutil quanto devastadora.

— Não precisa — respondi rápido demais, quase defensiva. — Chamo um carro.

Saí antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. O vento me atingiu assim que me afastei da porta do bar, cortante, cruel. Senti frio. Um frio que não vinha de fora.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Joyce, a parte sobre ser “uma mulher inteira” aos olhos dele me desmontou. Quantas de nós já sustentamos essa imagem enquanto por dentro contamos minutos, horários, permissões invisíveis? É um texto sobre desejo, mas também sobre controle.

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  2. O detalhe de tirar o salto antes da escada é devastador. Em uma frase, você constrói toda uma vida paralela que ele jamais poderia imaginar. Joyce, isso é escrita de quem observa demais e sente demais.

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