Caminhei devagar pela calçada deserta, tentando esticar cada passo, cada segundo da liberdade que ainda me restava. As janelas dos apartamentos se erguiam igual a olhos fechados acima de mim, e me perguntei como seria viver em qualquer um deles. Acordar sem precisar explicar onde estive na noite anterior.
O prédio onde morava apareceu à
minha frente. Subi as escadas pisando nas bordas dos degraus. No terceiro
andar, encostei a orelha na porta antes de girar a chave na fechadura.
Silêncio.
Consegui chegar ao meu quarto sem
acender as luzes do corredor. Deitei na cama sem tirar os sapatos. A vibração
do celular no bolso era uma pequena provocação noturna, iluminando o teto
escuro. Destravei a tela. A mensagem de Ted: “Olha só quem está aqui.”
Logo abaixo, a imagem se abriu.
A cena era familiar. O mesmo bar
de luzes murchas, paredes manchadas de cartazes e vozes soterradas por um rock
antigo. Mas agora, uma mulher sozinha ocupava o banco onde, pouco antes, eu
estivera sentada.
O contraste era impossível de
ignorar.
Vestia um vestido acetinado em
tom de azul petróleo, feito para brilhar sob aquela penumbra suada. Moldava-se
ao corpo dela como se fosse parte da pele. A postura era relaxada, os ombros
soltos, o pescoço levemente arqueado para trás. Os olhos semicerrados e o rosto
inclinado para cima entregavam um prazer morno, quase sensual, enquanto soltava
uma espiral de fumaça que se elevava em lentas curvas azuladas, cortando o
fundo borrado do bar.
O cigarro entre os dedos brilhava
sutilmente sob a luz amarelada do ambiente. A fumaça subia em rendas efêmeras.
Sobre o balcão de madeira, um copo de cerveja repousava com a espuma, já em
declínio, sugerindo que ela estava ali havia algum tempo.
Era como se alguém tivesse
colocado uma modelo de alta costura no meio de um boteco de bairro.
E eu sabia o nome dessa mulher.
Era Sofia.
Antes que eu pudesse sequer
piscar, outra notificação surgiu na tela: “Sofia esteve em uma festa mais cedo,
disse que precisava de uma cerveja antes de ir embora.”
Um gesto que soava a pura, e
calculada, provocação.
[Deixando a festa, Sofia irrompeu no bar em que me encontrava, um lugar de charme rústico e modesto. Disse-me que parou ali por uma única cerveja, antes de seguir viagem. Claro, um evento tão incomum exigia o seu registro. [Palavras de Ted]] - Joyce

Nossa, Joyce que texto. Consigo ver a cena perfeitamente. A descrição da fumaça subindo em lentas curvas azuladas me matou. Imaginar uma mulher vestida assim, num bar sujo, tragando com essa calma toda, é o auge.
ResponderExcluirObrigada! Fico feliz que tenha visualizado a cena. Esse contraste entre o glamour e o lugar comum é mesmo poderoso, né?
ExcluirO contraste semiótico é fascinante: a figura etérea da Sofia, envolta em seda e fumaça, contrapondo-se à brutalidade mundana do bar de "luzes murchas". O ato de fumar, neste contexto, deixa de ser apenas um hábito e torna-se um instrumento de poder e demarcação de território. Ela não estava apenas consumindo nicotina; ela estava performando superioridade. É uma imagem clássica do Film Noir, mas trazida para a sua realidade crua. Fiquei curiosa sobre como você reagiu internamente, além da observação estética. Um abraço.
ResponderExcluirSeu comentário é incrível, obrigada! Você resumiu perfeitamente a aura de poder que ela projetava. Minha reação interna? Uma mistura de fascínio e uma pontada afiada de inveja.
Excluirmenina do ceu!!! 😱 que aflição vc entrando em casa desse jeito, ja passei mto por isso de ter q subir escada pisando leve pra ngm acordar... da uma adrenalina ne? agora, essa sofia... que abuso kkkk ir la no SEU lugar toda chique so pra fazer cena. mas confesso q fiquei com inveja desse "prazer morno" q vc descreveu. deu ate vontade de acender um aqui agora. continua
ResponderExcluirKkkk, é isso! A adrenalina de chegar em casa assim é única. E sobre a Sofia... pois é, ela foi lá e performou, né? Invejinha dessa pose é permitida! Vamos fumar sim, agora!
ExcluirAAAAA SOCORRO!!! 😩 juro que senti meu coração disparar lendo a parte da escada! odeio essa sensação de ter q dar satisfação, super te entendo. e que ódio dessa sofia affff, mas ao mesmo tempo... gata né? 🙊 o jeito que vc descreveu ela soltando a fumaça com o pescoço pra tras nossa, deu gatilho forte kkkk. parece q ela sabia EXATAMENTE o q tava fazendo pra atingir o ted (e vc). to roendo as unhas esperando a continuação, nao demora joyce!! ❤️🚬
ResponderExcluirSeu coração disparou e o meu também escrevendo! Haha. Ela é gata e sabe muito bem o jogo que está jogando. Obrigada pela torcida! ❤️
ExcluirO detalhe do "copo com a espuma em declínio" mostra que vc é observadora demais. Mas o que pegou mesmo foi a postura dela. Ombros relaxados, cigarro entre os dedos brilhando tem mulher que nasce pra fumar, né? Parece que o cigarro é uma extensão da mão. Fiquei imaginando se ela traga fundo ou se é daquelas que brinca com a fumaça. Texto foda, Joyce.
ResponderExcluirQue bom que você percebeu esse detalhe! E sim, tem gente que tem a pose natural, como se o cigarro fosse parte do corpo. Ela é uma delas.
ExcluirVisualmente a cena é perfeita. Seda azul petróleo e fumaça cinza combinação mortal. Vc descreve o fetiche de um jeito muito real, sem ser vulgar, mas a gente sente o peso do desejo ali. Adorei.
ResponderExcluirMuito obrigada! Fico feliz que tenha sentido o peso do desejo na descrição. Esse equilíbrio é o que sempre busco.
ExcluirCaramba Joyce vc escreve mto bem. Deu pra sentir o cheiro do bar misturado com o perfume q ela devia ta usando. Essa coisa de "rendas efemeras" foi poesia pura. Pena q vc n tava la pra gente saber qm fumava com mais estilo ;) aposto em vc.
ResponderExcluirObrigada! 🥰 "Rendas efêmeras" é uma das minhas descrições favoritas também. E haha, obrigada pelo voto de confiança no estilo!
Excluirgente?? q audacia dessa mulher. ir de vestido de festa pro boteco kkkk amei. mas joyce, o foco nos "olhos semicerrados" entregou tudo. é akele momento q so quem fuma entende, qdo a nicotina bate e o mundo la fora some por uns segundos. invejei ela agr, n vou mentir.
ResponderExcluirTotal! Ir do vestido de festa pro boteco tem uma ousadia que admiro. E esse momento dos "olhos semicerrados" é realmente mágico e viciante.
ExcluirO Ted tá jogando xadrez com a cabeça de vcs duas. Mas que bela peça ele colocou no tabuleiro hein? A descrição tá impecável. Fico imaginando a marca de batom no filtro do cigarro dela ali no balcão. Detalhes que matam a gente. Aguardando o próximo post ansiosamente.
ResponderExcluirEle estava, né? E movia as peças com cuidado. Obrigada! Detalhes como a marca de batom no filtro são o que tornam a cena viva. Em breve tem mais!
Excluirai amiga q situação. chegar em casa tensa e ainda receber essa bomba no celular. mas olha, a descrição ta divina. "espiral de fumaça"... "prazer morno"... vc tem o dom. deu vontade de por um vestido chique e ir fumar na janela agora mesmo fingindo que sou a sofia kkkkk bjs lindona!
ResponderExcluirObrigada, amiga! ❤️ Situação tensa, mas a inspiração veio. Fique à vontade para seu momento Sofia na janela, você merece! Haha. Beijos!
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