Deixei o celular de lado e fiquei alguns segundos olhando o teto. Levantei devagar. Pisei nas bordas dos chinelos, deslizando-os pelo corredor, sem fazer barulho.
A luz branca do banheiro acendeu com um estalo seco, revelando o armário do espelho com a porta entreaberta. Dentro, encostada no canto, avistei a vela aromática da minha mãe. O vidro era fosco, a tampa de madeira, e o rótulo tinha as letras já meio apagadas. Fechei a porta sem pensar e continuei minha higiene noturna.
Na cozinha, procurei por um copo de água. A luz fraca sobre a pia revelou uma xícara no escorredor. Ainda havia uma mancha escura no fundo, vestígio da disciplina que minha mãe mantinha todas as noites: café, oração e, depois, a ronda para verificar se estávamos "seguros". Peguei-a para lavar; era automático. Ao aproximá-la do nariz, senti o aroma residual do café.
Foi então que percebi: o cheiro do bar ainda estava em mim. No cabelo, na pele, nas roupas. Uma mistura de fumaça, suor e cerveja. Meu odor e o do café pareciam se sobrepor, disputando o mesmo ar.
Lavei a xícara rapidamente, enxuguei as mãos e voltei ao banheiro. Abri o armário e peguei a vela. O vidro frio na minha mão parecia esperar que eu o aquecesse. Levei-a para o quarto e fechei a porta com cuidado. Acendi-a na cabeceira. A chama ergueu-se, ténue e trémula, lançando sombras que corriam pelas paredes. O perfume de cedro e âmbar começou a se espalhar.
Tirei a blusa e atirei-a para o fundo do armário, onde ficaria escondida até que eu pudesse lavá-la sem levantar suspeitas. O aroma da vela intensificava-se, criando uma camada de inocência sobre os vestígios da minha noite.
Deitei-me, observando a pequena luz tremer. Ted estava com Sofia agora, ocupando o espaço que eu fora forçada a abandonar. Ela podia ficar até o bar fechar, podia fazer o que quisesse, ir aonde desejasse. E eu ali estava, no meu quarto, a acender a vela da minha mãe para mascarar o cheiro da minha própria existência.
A chama continuou dançando, projetando sombras que pareciam me observar, até que o sono me venceu.
Fechei os olhos.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

O detalhe da vela aromática da mãe sendo usada para cobrir o cheiro do bar foi de partir o coração. Parece uma metáfora perfeita para a tentativa de apagar uma parte de si mesma. Fiquei me perguntando: será que você conseguirá, em algum momento, integrar essas duas ‘camadas’ de cheiro (e de existência)? Ou vai continuar vivendo essa dualidade? Texto lindo e melancólico.”
ResponderExcluirObrigada! Essa metáfora do cheiro é realmente o centro dessa parte. Integrar essas duas partes de mim. essa é a grande questão e o maior desafio. Vamos ver nos proximos textos. rsrsrs
ExcluirSinto que esse contraste entre o ritual doméstico (a xícara da mãe, a vela) e os vestígios da noite fora captura algo muito profundo sobre identidade e duplicidade. Parabéns pela escrita tão atmosférica.
ResponderExcluirMuito obrigada! Fico feliz que tenha captado essa atmosfera de duplicidade. É exatamente essa sensação de viver em camadas que eu queria transmitir.
ExcluirEu já vivi essa cena. Já acendi velas, abri janelas, lavei roupas às escondidas. É angustiante sentir que seu próprio cheiro precisa ser escondido. Aquele momento de se olhar no espelho do banheiro, o silêncio no corredor, a necessidade de ‘mascarar’ o próprio cheiro. Isso fala muito sobre a pressão de se encaixar em expectativas alheias. Me identifiquei
ResponderExcluirÉ angustiante, não é? Essa necessidade de esconder uma parte de si para se encaixar é um peso muito solitário. Saber que você se identifica, de alguma forma, me faz sentir menos sozinha nisso. Obrigada por compartilhar.
ExcluirJuro que achei que ao pegar a vela aromatizada e levar para o quarto era para acender um cigarro e a vela disfarçar o cheiro.
ResponderExcluirFaz sentido. Mas de certa maneira era pra esconder o cheiro, o que já estava em mim. Obrigada pela atenção.
Excluir