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A Euforia Pós-sexo (22)

Acordei com o peito arfando, parecia que tinha corrido por corredores intermináveis. O quarto estava mergulhado em silêncio, coberto pelo pesado tecido da escuridão. O lençol grudava na pele úmida; a respiração seguia acelerada, e um suor frio escorria pelas minhas costas.

O sonho ainda vibrava, latejando por trás da memória. Eu estava diante do espelho do meu quarto, ou, pelo menos, de algo que se fazia passar por ele, e via minha mãe ali. Não exatamente como a lembrava, não no corpo que reconheço. Vestia minha blusa azul, a mesma que Ted já arrancara de mim com uma impaciência quase terna. Tragava um cigarro com uma calma ensaiada. Nela, havia uma autoridade silenciosa. A fumaça, em vez de subir livre, espalhava-se lenta e densa, criando uma atmosfera própria.

No reflexo, ela me encarava com um olhar resoluto. Não era o olhar de mãe; era outro, insondável. E então, já não havia quarto: eu estava diante de um espelho d’água, sozinha no deserto, enquanto o vento esvoaçava minhas vestes. A fumaça desenhava círculos que pareciam se fechar em torno de nós duas e, quando tentei falar, minha voz não saiu.

O deserto não tinha fim, e o sol parecia ter esquecido meu nome. Caí de joelhos, estendi a mão em direção à água. A linha entre mim e minha mãe era uma miragem no horizonte, impossível de tocar ou apagar. Movia-me como uma duna sob o comando de um vento incessante, e cada grão de areia que me formava parecia pedir permissão a uma voz que se perdia no eco.

Cavei no solo dourado, tentando guardar um murmúrio. Senti o toque de Ted no ombro, mas, quando me virei, havia apenas um vulto indistinto. Ele não me segurava, não me prendia; apenas me atravessava, como se eu fosse tão leve quanto a poeira.

O deserto se estendia em todas as direções. O vulto deixara pequenas marcas na areia, passos que não levavam a lugar algum. Segui-os, até perceber que eram meus próprios rastros. Ao longe, vi novamente o espelho d’água. Aproximei-me, toquei sua superfície e senti uma pulsação, um batimento lento, profundo. Mergulhei.

Quando ergui os olhos, minha mãe estava de novo ali, imóvel, tragando o cigarro com a mesma paciência impenetrável. A brasa refletia na água como um pequeno sol. Ela não disse nada, apenas inclinou levemente a cabeça, e senti que me convidava a atravessar.

A sensação de enredamento era sufocante, como se não houvesse fronteira entre o corpo dela e o meu. Acordar não trouxe alívio.

Levantei-me e me despi. Queria me ver inteira. Queria saber quem eu era quando estava nua. Queria que ela soubesse quem eu era quando estava nua.

Ela sempre encontrava uma forma. Invadia até minha rebeldia mais íntima.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Fiquei curioso, porque tampou o rosto nesta foro?

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    1. Foi meio no susto. Ted me pegou de surpresa e eu estava toda desarrumada. Acabei cobrindo o rosto sem pensar. Mas fiquei curiosa agora: o que essa imagem te passa?

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  2. Essa parte dela usar a sua blusa azul, meu Deus minha mãe faz isso. É sufocante né? A gente tenta fugir, tenta ser a gente mesma (a parte da nudez foi foda!), mas elas tao sempre lá. Vc escreve demais. ❤️

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    1. É sufocante demais. Você descreveu perfeitamente. A gente busca tanto um espaço próprio, mas parece que a sombra delas está sempre lá. Obrigada por perceber o significado da nudez e pelo apoio!

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  3. Joyce, achei incrível como você descreveu esse sonho. Ele mostra algo muito forte: em vez de sua mãe te ajudar a se encontrar, parece que ela acaba ocupando o seu lugar e sufocando quem você é.
    ​Aquele deserto simboliza bem esse vazio que a gente sente quando não tem espaço para as nossas próprias vontades. O Ted, no fim das contas, nem é o foco; o verdadeiro conflito é essa ligação com a sua mãe que você ainda está lutando para romper.
    ​Quando você aparece nua no final, sinto que é um desejo de tirar todos esses pesos e recomeçar do zero, sendo apenas você mesma. Parabéns pela coragem de mostrar essa relação tão complicada e sufocante.

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    1. Obrigada por essa leitura tão profunda e por enxergar tudo isso. É exatamente esse sentimento de vazio, falta de lugar e a luta pela própria identidade. Suas palavras sobre o desejo de recomeçar tocaram muito. Agradeço demais.

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  4. Mds mulher vc é uma artista!!!! 😍😍😍 'O sol parecia ter esquecido meu nome'. Pqp que frase linda e triste. Já quero seu livro na minha estante pra ontem!!!

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    1. Muito obrigada! Ler isso deixa o coração quentinho. Fico imensamente feliz que uma frase te tocou assim. Agradeço muito pelo incentivo, é o que me faz seguir escrevendo. 😊

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  5. Ela sempre encontrava uma forma. Invadia até minha rebeldia mais íntima. Isso doeu na alma. Tenho 35 anos e sinto que ainda peço permissão pra minha mãe pra respirar. Obrigada por colocar isso em palavras

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    1. É um sentimento tão pesado e difícil de nomear, né? Saber que alguém mais sente isso de alguma forma é reconfortante, mesmo sendo triste. Obrigada por compartilhar. Desejo força para nós duas.

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  6. caraca a parte que vc se ve nua pra saber quem é profundo. as vezes a gente se veste de tantas camadas que esquece o que tem por baixo. continue escrevendo, vc tem dom.

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    1. É isso mesmo. A gente vai se cobrindo de tantas camadas para o mundo que esquece de si. Obrigada por entender tão bem e pelo incentivo! Vou continuar, sim.

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