A melancolia daquela noite não se
dissipou com o passar dos dias. Quando Ted me ligou, sua voz alegre e a
promessa de uma tarde tranquila me pareceram uma chance de fuga. Eu me agarrei
à ideia de um café e uma conversa, mas, assim que o encontrei, senti que o
mal-estar me seguia.
Ted me falava distraído sobre "Horizonte
Perdido", tentando explicar por que detestava finais ambíguos.
Caminhávamos devagar, sem destino, deixando que a tarde se estendesse no
compasso dos nossos passos. Eu o escutava, mas a atenção oscilava entre a
cadência da sua voz e a amargura com que a vida me tratava.
Havia algo no rosto de Ted que me
perturbava. Uma assimetria quase imperceptível no sorriso. Era nesses momentos
que eu sentia o impulso de interrompê-lo com um beijo.
Ele gesticulava, explicando como
James Hilton havia construído Shangri-La. As mãos desenhavam arcos no ar morno
da tarde enquanto falava sobre a diferença entre escapismo barato e utopia
genuína. Eu mantinha o olhar fixo nele, assentindo nos momentos certos.
Ted sorria para detalhes banais:
um cachorro que dormia à porta de uma loja, o reflexo de uma bicicleta na
vitrine, e eu devolvia um riso mecânico. Ele me puxou para perto. Eu deixei,
mas por dentro algo se encolhia. O toque não encontrava espaço para se
espalhar.
Ele me olhou, meio triste, meio
curioso, tentando entender. Mas mantive silêncio. Era melhor que ele
continuasse acreditando que meus silêncios eram apenas distração.
Instigado pela própria conversa,
Ted nos guiou até um sebo. Ele logo se perdeu entre prateleiras estreitas,
escolhendo títulos pelos dorsos. Eu o seguia, distraída, observando a maneira
deliberada com que tocava cada volume antes de decidir se valia a pena abrir.
Ele se aproximou com um livro na
mão, os olhos brilhando com entusiasmo sincero demais para ser interrompido.
Estendeu-me o volume, o título gravado em letras desbotadas: Horizonte Perdido.
Tocou a capa com cuidado de quem segura algo frágil demais, e eu observei o gesto
pensando que talvez fosse assim que ele me enxergasse.

Adorei a referencia a 'Horizonte Perdido'! E a discussão sobre finais ambiguos é mto pertinente. Vc tem um dom para criar atmosfera, dava pra sentir o cheiro do sebo e o calor da tarde. Post lindo, como sempre. Aguardando o próximo!
ResponderExcluirAdorei que tenha gostado da referência! Obrigada pelo carinho. Fico feliz que tenha conseguido sentir a atmosfera. 🥰
ExcluirInteressante como vc constroi a desconexão. Não é uma tristeza barulhenta, é um peso. Ela observa os detalhes físicos do Ted (a assimetria, as mãos) como se buscasse uma falha, uma justificativa para sua própria incapacidade de se entregar ao momento. O livro oferecido no final é um símbolo perfeito: ele oferece o 'Horizonte Perdido', uma utopia, mas ela só consegue ver o objeto, a capa desbotada, o gesto cuidadoso que a aprisiona numa ideia de fragilidade. Muito bom. Parabéns.
ResponderExcluirPerfeita sua análise. É exatamente essa sensação de observar detalhes para se distanciar do sentimento. Obrigada por ler com tanta atenção.
ExcluirO horizonte perdido eram os sentimentos que eles não conseguiam compartilhar.
ResponderExcluirFrase certeira. Resumiu tudo.
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