Tentei comentar algo sobre o
enredo, mas minha voz saiu mais baixa do que pretendia. Ted não pareceu notar.
Continuou falando sobre o fascínio que tinha por lugares isolados, onde o tempo
se dobra e o resto do mundo desaparece. Eu lhe perguntei se ele imaginava que
poderíamos viver assim também, protegidos de tudo.
O problema é que não estávamos.
Eu carregava escondido um mundo inteiro que nunca coube nas nossas conversas.
Levei a mão disfarçadamente ao bolso, segurei o celular e fechei os olhos. A
lembrança do bar voltou; o riso que talvez ele tivesse dado ao vê-la. Eu fingia
que aquilo não me incomodava, mas ainda doía.
Quando saímos do sebo, ele ainda
falava do livro. Eu respondia com frases curtas, algumas até deslocadas. Tentava
me esquivar. Ele apertou minha mão e eu deixei, imóvel, como se fosse só um
gesto protocolar. No fundo, tinha medo de que ele percebesse o espaço que crescia
entre nós.
Seguimos até uma praça
silenciosa, onde o sol começava a se inclinar. Sentamos lado a lado. Ted
colocou o livro no colo e cofiou lentamente a capa com os dedos. Ele ergueu o
olhar, sorrindo para a praça vazia.
— Eu imagino — ele murmurou —,
que você poderia vir aqui todas as tardes, só para ler. E eu passaria de
mansinho, recostaria a cabeça no seu colo, e nós ficaríamos assim.
Concordei com um aceno, sem olhar
muito tempo para ele, para que meus olhos não revelassem nada.
O silêncio que se seguiu não foi
confortável. Ted passou a mão no cabelo, respirou fundo. Perguntou se eu estava
cansada ou se havia algo errado. Respondi rápido demais que não, que estava
tudo bem, e percebi pelo leve arqueamento de suas sobrancelhas que a resposta
não o convenceu.
Tentou brincar, contar algo
engraçado que vira no trabalho, mas o riso não encontrou espaço.
Quando nos levantamos para ir
embora, senti a mão dele hesitar antes de segurar a minha. Esse cuidado
inesperado me feriu.
Caminhamos até a esquina onde nos
despediríamos. Ele sorriu, mas havia um peso atrás do sorriso. Eu lhe disse que
avisaria quando começasse a ler o livro. Em seguida, tomamos caminhos opostos.

Não senti ciúme ali. Pra mim, sua raiva não é exatamente do Ted, nem de Sofia. Parece mais uma raiva torta, que sobra depois daquela noite em que teve que ir embora e deixá-lo sozinho no bar. Tem culpa, tem ressentimento dos pais, tem frustração consigo mesma, com a vida que te empurra pra fora das próprias escolhas. Quando vocês se encontram de novo dias depois, nada foi resolvido, só ficou em suspensão. Por isso tudo ainda está ali. Você o acusa e ao mesmo tempo não acusa ninguém. No fim, é sobre si mesma que isso tudo recai.
ResponderExcluirVocê tem razão. Obrigada por ler com tanta atenção.
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