Pular para o conteúdo principal

A Euforia Pós-sexo (32)

Ted ainda dormia quando me levantei. Nossas roupas espalhadas pelo chão forneciam um mapa silencioso do que havia acontecido.

Contornei a cama sem fazer ruído e o observei uma última vez antes de abrir sua bolsa. Meus dedos encontraram o tecido macio e limpo de sua camiseta reserva. Dobrei-a rápido, escondendo-a no fundo da minha mochila. Um furto pequeno, mas necessário.

Enrolei de propósito esperando que Ted saísse apressado para o trabalho. Quando ele desceu, me vi finalmente sozinha. Vesti a camiseta devagar, sentindo o tecido abraçar meus seios ainda sensíveis. No espelho manchado, encarei uma versão provisória de mim mesma; alguém que existiria apenas por algumas horas antes de se dissolver no caminho de volta para casa.

Já na rua, acendi um cigarro. Fumei com calma, deixando a fumaça impregnar a malha roubada. Uma confissão silenciosa que eu carregaria no corpo.

No trabalho, as luzes frias não perdoavam. O ar era neutro, controlado, inodoro. Caminhei pelos corredores sentindo o algodão contra a pele, a estampa incomum da camiseta de Ted aparecendo de relance quando minha blusa se movia. Nenhuma palavra precisava ser dita.

Sofia passou por mim. Vi seus olhos pararem um segundo a mais do que deveriam; o instante exato em que ela registrou algo. Fiz questão de me aproximar. Inclinei-me o suficiente para que ela sentisse o cheiro. Sofia inspirou involuntariamente e seus olhos se estreitaram numa mistura de curiosidade e alarme.

Aquele ambiente, com sua obsessão por transparência e limpeza, só amplificava qualquer elemento estranho que se infiltrasse em sua perfeição asséptica. Tudo ali conspirava a meu favor. O brilho do piso encerado e os vidros das janelas multiplicavam minha imagem. Cada pessoa que cruzava comigo recebia informações que não sabia decodificar. Eu havia me tornado um signo puro, sem origem aparente.

Eu existia, simultaneamente, como funcionária e como o receptáculo da noite anterior. Ao ir embora, percebi que minha presença se transformara em performance. O trabalho, com toda a sua pretensão de neutralidade, se revelara o cenário perfeito para aquela experiência. Sua artificialidade extrema transformava qualquer traço de autenticidade em algo, no sentido mais estrito do latim, "ob-scena".

(Nota: Ob scaena, do latim, significa literalmente "fora de cena" ou "atrás do palco", origem da palavra obsceno: aquilo que não deveria ser mostrado em público.)

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Essa ideia de levar a noite para dentro do dia me arrepiou. A camiseta como extensão do encontro, quase um talismã. Quem vive o fetish sabe como o cheiro vira memória portátil.

    ResponderExcluir
  2. Sofia percebendo “algo” sem conseguir nomear foi uma das melhores partes. Esse jogo silencioso, quase invisível, é muito mais excitante do que qualquer exposição direta.

    ResponderExcluir
  3. Não é um post sobre fumar, é sobre contaminar o mundo com um resto da noite. A fumaça aqui é quase um manifesto silencioso contra a assepsia.

    ResponderExcluir
  4. O trecho final sobre o obsceno foi cirúrgico. Não no sentido moral, mas espacial. Aquilo que não deveria estar ali ganha força justamente por estar fora de lugar.

    ResponderExcluir
  5. Terminei com aquela vontade estranha de sair de casa usando algo que não me pertence, só pra sentir o peso disso no corpo. É esse tipo de escrita que planta ideias.

    ResponderExcluir
  6. A camiseta não é aviso. Um recado que não pode ser contestado sem parecer paranoia. Genial e cruel na medida exata.

    ResponderExcluir
  7. Joyce não “conta” nada a ninguém, e ainda assim diz tudo. É uma estratégia silenciosa, quase elegante. Para Sofia, especialmente, isso deve ter soado alto demais.

    ResponderExcluir
  8. O momento em que Sofia sente o cheiro muda completamente a leitura. Ali não é curiosidade: é reconhecimento. Joyce vc marcou território sem precisar de palavras, e isso é muito mais poderoso.

    ResponderExcluir
  9. Adorei perceber que o plano não era apenas pessoal, mas social. Levar o vestígio de Ted para o trabalho é transformar o desejo em narrativa pública ainda que ninguém saiba explicá-la.

    ResponderExcluir
  10. Isso é posse sem cena, sem confronto. O obsceno aqui não é o cheiro ou o fumo, é a intimidade exposta no lugar errado. Para quem entende, a mensagem é cristalina.

    ResponderExcluir
  11. Sofia deu em cima de Ted, mas voce jogou em outro nível. Não competiu evidenciou com uma frieza deliciosa.

    ResponderExcluir
  12. Para mim, dá pra sentir claramente uma progressão no seu pensamento. Primeiro vem aquela percepção quase física do ambiente, a luz, a limpeza excessiva, o escritório como um lugar que amplifica qualquer desvio. Isso ajuda a gente a entender por que o cheiro, o olhar, o corpo dela se tornam tão visíveis ali.

    Depois, quando o texto avança para essa conclusão mais conceitual, parece um passo natural. Não é mais só sobre o cenário, mas sobre o significado disso tudo: o trabalho como palco, a autenticidade virando algo quase obsceno por estar “fora de cena”. Gostei muito dessa ideia de performance involuntária. Dá a sensação de que a narradora não apenas vive a transgressão, mas passa a entendê-la como algo estético, quase artístico. Esse encadeamento deixou o trecho mais forte, não redundante.

    ResponderExcluir
  13. ♥️♥️♥️♥️♥️♥️♥️♥️

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prazer...

Meu nome é Joyce (pelo menos por aqui rsrsrs). Simples assim. Sem segredos no nome, embora eu os tenha de sobra na alma. Tenho entre 30 e 40 anos, e um currículo impecável em todas as áreas que não envolvam vida social. Até os 25 nunca namorei. Nunca fui popular. Nunca fui o tipo de mulher que alguém olha duas vezes na rua e, sinceramente, por muito tempo achei que isso era uma virtude. Fui criada numa família onde aparência valia mais que afeto, e onde ser uma "boa moça" era o destino final, não o ponto de partida. Cresci achando que desejo era uma espécie de doença e que o silêncio era a linguagem mais segura. E talvez tenha sido mesmo. Pelo menos até eu conhecer Ted. Mas não quero parecer trágica. Trágico é o que nunca muda. E eu, bom, eu mudei. Ou estou tentando. É por isso que resolvi contar essa história. Porque às vezes é preciso escrever para entender. E às vezes é preciso acender o primeiro cigarro para, enfim, respirar. [Essa foi a primeira foto que tirei fumando,...

O Dia em que Fumei Pela Primeira Vez (7)

Na volta para casa, depois do almoço, porque na sexta só trabalhávamos pela manhã, passei mais uma vez em frente à tabacaria. Parei por mais tempo na vitrine. É só um maço , pensei. Não significa que vou virar fumante. É só... uma experiência . Mas não entrei. Não ainda . Dei uma volta no quarteirão. A ansiedade aumentava a cada passo, até que, sem nem perceber, meus pés me levaram de volta até a porta da loja. Parei por apenas alguns segundos, respirei fundo e entrei. O coração batia como se eu estivesse prestes a cometer um crime. Lá dentro, o cheiro de tabaco e papel, que eu esperava detestar, me trouxe um estranho conforto. O homem no balcão me olhou com curiosidade discreta. "Boa tarde. Posso ajudá-la?" " Marlboro Light", respondi, com uma firmeza que me surpreendeu. "Maço comum ou carteira?" Não fazia ideia da diferença. "Comum", arrisquei. "Vai precisar de isqueiro?" Isqueiro. Como não pensei nisso? "Sim, por fav...

Bem-vindos ao Novo Lar do Smoking Fetish no Brasil!

 É com imensa satisfação que inauguramos este espaço dedicado a todos os entusiastas e curiosos do smoking fetish no Brasil! Há muito tempo, percebemos uma lacuna na comunidade: o antigo blog "smokingfetishbrasil", embora tenha sido um ponto de encontro importante, foi infelizmente abandonado há anos. Comentários se acumularam, ultrapassando a marca dos 500 em muitas postagens, transformando a discussão em um emaranhado difícil de seguir e participar. Pensando nisso, criamos este blog com um propósito claro: facilitar a reunião e a troca de ideias entre as pessoas . Queremos que este seja um ambiente novo e vibrante onde todos possam se sentir à vontade para compartilhar suas perspectivas, discutir sobre o tema e se conectar com outros que compartilham esse interesse. Nosso objetivo é proporcionar uma plataforma intuitiva e dinâmica, onde os comentários sejam organizados e as conversas fluam naturalmente. Chega de se perder em centenas de respostas; aqui, a interação será si...