Eles
pareciam tão naturais juntos. Não havia nada do cuidado constante que Ted e eu
mantínhamos no escritório, nada da distância profissional que ele fazia questão
de preservar entre nós. Com Sofia, ele despia a armadura. Não era o Ted que olhava
por cima do ombro antes de me cumprimentar, nem o que evitava ficar sozinho
comigo na copa.
Sentei-me
a alguns metros de distância, com uma pasta aberta à minha frente, apenas para
justificar minha presença ali. A distância era segura, mas suficiente para
ouvir os tons abafados da conversa entre eles.
Sofia
ainda ria. Agora com mais confiança, sabia ter ultrapassado um limite e se
sentia confortável ali. A voz era íntima, lenta. E Ted escutava. O corpo dele agora
voltava-se inteiramente em sua direção. Os gestos estavam menos contidos, havia
uma troca implícita.
Sofia
inclinou-se sobre a mesa e apontou algo em uma folha. Ted se curvou junto, os
ombros quase tocando os dela. Ela usava um perfume leve, amadeirado. Eu o
reconheci, ela gostava deste por harmonizar bem com o tabaco. Pura
premeditação.
Meus
olhos registraram o contato da mão dela com o papel, seguido pelo roçar
calculado do antebraço no dele. Ted não se afastou. Manteve-se próximo, atento.
Peguei
uma caneta qualquer e comecei a sublinhar palavras inexistentes. As pontas dos
meus dedos estavam levemente úmidas. Eu não olhava diretamente, mas tudo em mim
se inclinava na direção deles: os ouvidos, o foco, a pele.

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