Ele me observava mais do que
falava. Os olhos deslizavam pelo meu rosto, pousavam em minha boca, voltavam a
me fitar com uma paciência estudada. Eu me sentia exposta, ao mesmo tempo
poderosa. Observei o modo como ele passou a mão pelo cabelo, o tremor suave em
sua garganta ao engolir. Eu queria traçar essa linha com meu dedo.
O cheiro dele dominava meu espaço
pessoal, uma mistura intoxicante de cerveja e pele. Era o cheiro do desejo, do
arrependimento, da possibilidade.
Em dado momento, Ted esticou o
braço e tocou minha mão por cima da mesa. Seus dedos eram quentes, macios.
Fiquei alguns segundos assim, deixando que ele traçasse pequenos círculos na
minha pele.
Tentei me entregar àquele
momento, ao zumbido baixo das conversas, à MPB tocando em um aparelho antigo.
Tentei afundar naquele refúgio ilusório onde apenas nossos corpos importavam.
Mas a sensação de vigilância persistia. Eu me senti exposta, como se cada um de
meus gestos calculados, cada sorriso contido, estivesse sendo dissecado. Eu era
uma intrusa em seu mundo.
Ted inclinou-se para a frente e
sussurrou em meu ouvido um convite para eu me oferecer inteira, um pedido para
que eu fumasse. Uma tensão me prendeu à cadeira, uma sensação incômoda de estar
sob um olhar maior que o dele. Senti cada ato meu sendo escrutinado por olhos
anônimos.
Minha negativa escapou curta,
firme, sem espaço para disfarce. Ele me fitou por um instante, o rosto imóvel.
— Certinha.
A palavra repercutiu,
multiplicada dentro de mim, e quanto mais reverberava, mais ácida se tornava.
Justamente dele, que já me conhecera nua, que sabia dos sons que meu corpo
produz quando perde o controle. Ainda assim me rotulou em um afeto perverso.
Como podia me reduzir a isso, me
nomear como uma menina bem-comportada, como se aquele "não" anulasse
tudo o que já tínhamos feito? Tentei um sorriso sem graça, mas por dentro a
insegurança se alastrava. A imagem dos meus pais, a desaprovação silenciosa,
tudo se misturava ao desejo e ao medo.
O burburinho do bar explodiu em
meus ouvidos: risadas estridentes, o raspar de cadeiras, o retinir de copos.
Cada som era uma agressão aguda e desconexa, deixando minha respiração
superficial.
Ele se afastou. A profundidade em
seus olhos se esvaiu, o foco se perdeu. A tensão palpável, o clímax do momento
em que eu esperava que ele me devorasse, dissipou-se. Seu olhar buscou refúgio
nas paredes cobertas de jornal, nas manchetes desbotadas, em qualquer ponto que
não fosse eu.
A dúvida não me deixou em paz, o
quão sério Ted levava aquilo? Era difícil acreditar que o mesmo homem que,
instantes antes, parecia tão próximo, agora estivesse sentado ali, quase
inacessível. Havia algo entre nós, uma distância que crescia em silêncio. O
bar, que no início me parecera curioso e até reconfortante, revelava-se menos
um abrigo do que um cenário gasto, onde as paredes cobertas de jornal já não
guardavam histórias, apenas a lembranças.
O gosto da cerveja ainda
permanecia na minha boca quando cheguei em casa. Tirei os sapatos devagar e me
deitei na cama. A camiseta dele estava no armário, lavada e dobrada, silenciosa
e expectante, esperando uma oportunidade de ser devolvida.

Karina mas vc já se inspirou pra fumar nos vídeos de smoking fetish?
ResponderExcluirAna conte também como vc começou a fumar?
ResponderExcluirJá contei.
ResponderExcluirA sensação de estar sendo observada o tempo todo. Não pelo Ted, mas por algo maior, social. Me identifiquei demais.
ResponderExcluirNão. São só mulheres fumando, não tem nada demias.
Interessante como o desejo some rápido quando entra o julgamento. Ele não precisou dizer nada além daquela palavra. Ótima construção psicológica.
ResponderExcluirNão é um texto confortável, e isso é um elogio.
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