No dia seguinte, eu voltava da
coordenação, tendo entregue um relatório que, ironicamente, ninguém leria com a
devida atenção. Essa ironia não me escapava, considerando o escrutínio
minucioso ao qual minha vida parecia estar submetida naqueles dias. O corredor
se estendia, ladeado por sussurradores agrupados em torno do bebedouro, sacerdotes
de um culto banal.
Escutar foi fácil. De um lado,
uma voz masculina, com uma intimidade que nunca lhe foi dada, dizia que eu era
certinha demais. Do outro, uma voz feminina completava que logo Ted se
cansaria.
Continuei andando fingindo não
ter ouvido. Permiti-me um sorriso pequeno e secreto. Eles falavam de mim. Isso
significava que eu existia, que causava algum tipo de impacto, que não era
apenas uma silhueta vagando pelos corredores da mediocridade. Eu saboreava cada
sussurro, cada olhar enviesado, cada fragmento de atenção que me confirmava
como protagonista de uma história que, finalmente, valia a pena ser contada.
Segui até a minha mesa, depositei
a bolsa e fiquei alguns segundos com as mãos imóveis sobre o teclado desligado.
Atrás da janela, ouvi alguém dizer que Ted merecia coisa melhor.

Ansioso pelo texto onde os pais descobrem
ResponderExcluirLogo
ResponderExcluirQue ódio
ResponderExcluirJá passei por isso no trabalho e nunca tinha visto alguém narrar com tanta lucidez.
ResponderExcluir“Eles falavam de mim. Isso significava que eu existia.” Dói admitir, mas é verdade em muitos momentos da vida.
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