Desci do ônibus por impulso,
antes do meu ponto habitual. O fim de tarde, seco e avermelhado, ainda
carregava o calor do dia, mas o vento já trazia consigo o frio que arrepiava a
pele. Caminhei sem destino, com vontade de sumir antes de cruzar a soleira da
porta.
Busquei o maço de cigarros dentro
da bolsa. Meus dedos tatearam o fundo, entre papéis amassados e moedas soltas.
Quando o encontrei, estava vazio. A constatação de que até meu pequeno ato de
rebeldia tinha um limite me deixou infantilmente à mercê do crepúsculo.
A praça apareceu à frente. Árvores
antigas avançavam com raízes sobre o chão. Escolhi um banco sob um ipê amarelo
explodindo em flor; as pétalas cobriam o cimento avermelhado.
À frente, a fonte erguia-se num
estrado circular de tijolos. Colunas sustentavam um teto abobadado. Da água
morna subia um leve vapor, e o cheiro sulfuroso se misturava ao ar frio.
Olhei ao redor. Uma senhora
atravessava uma ponte com guarda-corpos de concreto que imitavam troncos de
árvores entrelaçados. Mais adiante, uma criança corria sob um salgueiro-chorão,
fazendo as folhas se moverem a cada passagem.
Esfreguei uma flor sob meus pés até desfazê-la. Fechei os olhos. O som da fonte virou uma pulsação contínua. Ao abri-los, ergui-me devagar, dei alguns passos e mergulhei as mãos na água morna. A noite começava a se impor. Ao longe, meu quarto me chamava e eu hesitava em atender.

Comentários
Postar um comentário