Ted atendeu da rua. Consegui
ouvir o ruído do trânsito ao fundo. A voz do meu pai entrou pelo aparelho,
cheia de autoridade e sem hesitação.
— Senhor, aqui é o pai da Joyce.
Preciso falar com o senhor, é urgente.
Do outro lado, eu imaginava Ted
atendendo com a polidez habitual, tentando entender aquela voz desconhecida que
não se identificava e já chegava cheia de acusações. Meu pai não perguntava,
decretava: queria saber quem era aquele homem que teve a ousadia de se envolver
com sua filha, por que ele tinha me desvirtuado, de que buraco tinha surgido.
Pedi para meu pai parar com
aquilo, mas ele nem me ouviu. Cada frase era dita com raiva acumulada. Pude
ouvir Ted insistindo que eu era adulta, que tomava minhas próprias decisões,
que não havia nada escondido. Ele tentava explicar que não me manipulava, que
me respeitava. Que minhas escolhas eram minhas.
Meu pai chamou-o de parasita, de
malandro de esquina que não queria saber de trabalho, só de se aproveitar de
uma garota de família. Tentei intervir novamente, com a voz um pouco mais alta.
"Pai, por favor, desliga. Não é isso."
Ele nem sequer virou o rosto. Seu
olhar estava fixo em algum ponto distante, onde ele construía o seu inimigo.
Cortou Ted no meio de uma frase, chamando-o de vagabundo, de lixo que se acha
no direito de tocar em quem é decente.
Ted ainda tentava manter a calma,
repetindo que trabalhava honestamente, que gostava de mim, que não me
explorava.
Aproximei-me, estendendo a mão
para o celular, implorando para meu pai parar, dizendo que ele não conhecia
Ted. Meu pai me afastou com um gesto brusco, continuando a tempestade de
insultos. O diálogo era impossível. Ele questionou a masculinidade de Ted, a
honra da família dele, e prometeu que, se ele chegasse perto de mim novamente,
ia resolver "na base do cacete", que era a única linguagem que um
pilantra entenderia.
Minha voz saiu mais desesperada.
Eu já não pedia, eu suplicava, dizendo que meu pai não sabia o que estava
fazendo, que ele estava destruindo tudo. Mas ele só enxergava a própria fúria.
A honra da família, para ele, era uma bandeira manchada que precisava ser
lavada com a humilhação alheia.
Quando meu pai finalmente
encerrou a ligação, lançou-me um olhar duro, dizendo que a culpa era minha por
ter trazido aquela vergonha para dentro de casa. Jogou o celular na cama antes
de sair do quarto.

O pior é o sentimento de impotência de ver alguém que vc gosta sendo humilhado por sua causa
ResponderExcluirIsso é mto pesado. É o tipo de coisa q marca o relacionamento pra sempre.
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