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Cai o Pano (24)

Na manhã seguinte, preparei meu currículo, organizando datas e cargos. Anunciei aos meus pais que sairia para procurar emprego, sentindo um tímido orgulho por ter conseguido sair de casa sem chorar.

Nas ruas, o ar ainda conservava o frescor da madrugada. As lojas começavam a abrir as portas, enquanto seus proprietários moviam-se com a lentidão característica de quem repete os mesmos gestos há anos, medindo cuidadosamente cada movimento para que durassem todo o dia.

Subi as escadas de um corredor apertado. Uma senhora de óculos grossos organizava canetas em recipientes de plástico. Entreguei meu pen drive e pedi à atendente da LAN House para imprimir várias cópias do meu currículo.

A próxima parada foi em uma empresa onde uma recepcionista da minha idade atendia uma idosa com infinita paciência. Esperei minha vez, observando-a manter a atenção quando a senhora mudava de assunto pela terceira vez. Quando chegou a minha vez, entreguei o currículo e recebi a cortesia distante de quem já viu muitos currículos e sabe que a maioria será esquecida até o fim do dia.

Assim seguiu a manhã. Local após local, sorriso após sorriso, currículo após currículo. Em cada interação, o mesmo percurso rápido: rosto, roupas, postura, antes de decidirem que tipo de tratamento eu merecia.

Depois do almoço, liguei para Ted. Ele tinha acabado de chegar do trabalho e, sem hesitar, aceitou me acompanhar, com a voz estranhamente calma. Andamos pelo centro. Os currículos amassados dentro da minha bolsa pareciam pesados. Cada empresa me devolvia olhares polidos e retornos protocolares.

Em determinado momento, parei numa esquina. Abri a bolsa e peguei o maço de cigarros que havia comprado naquela manhã. Foi um gesto automático. Ted apenas me olhou, sem dizer uma palavra. Fiquei ali, tragando devagar. Ele se encostou em mim e segurou minha mão com a ponta dos dedos, mantendo-se em silêncio. Esse silêncio foi o primeiro gesto de cuidado do dia.

Guardei o maço depois de alguns minutos e joguei a bituca num cesto de lixo próximo. Ted colocou a mão no meu ombro e eu entendi, sem palavras, que ele queria me tranquilizar. A mão dele, quente e breve, era um sinal de que eu ainda tinha um resguardo fora daquela casa.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

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