Na manhã seguinte, preparei meu
currículo, organizando datas e cargos. Anunciei aos meus pais que sairia para
procurar emprego, sentindo um tímido orgulho por ter conseguido sair de casa
sem chorar.
Nas ruas, o ar ainda conservava o
frescor da madrugada. As lojas começavam a abrir as portas, enquanto seus
proprietários moviam-se com a lentidão característica de quem repete os mesmos
gestos há anos, medindo cuidadosamente cada movimento para que durassem todo o
dia.
Subi as escadas de um corredor
apertado. Uma senhora de óculos grossos organizava canetas em recipientes de
plástico. Entreguei meu pen drive e pedi à atendente da LAN House para imprimir
várias cópias do meu currículo.
A próxima parada foi em uma
empresa onde uma recepcionista da minha idade atendia uma idosa com infinita
paciência. Esperei minha vez, observando-a manter a atenção quando a senhora
mudava de assunto pela terceira vez. Quando chegou a minha vez, entreguei o
currículo e recebi a cortesia distante de quem já viu muitos currículos e sabe
que a maioria será esquecida até o fim do dia.
Assim seguiu a manhã. Local após
local, sorriso após sorriso, currículo após currículo. Em cada interação, o
mesmo percurso rápido: rosto, roupas, postura, antes de decidirem que tipo de
tratamento eu merecia.
Depois do almoço, liguei para
Ted. Ele tinha acabado de chegar do trabalho e, sem hesitar, aceitou me
acompanhar, com a voz estranhamente calma. Andamos pelo centro. Os currículos
amassados dentro da minha bolsa pareciam pesados. Cada empresa me devolvia
olhares polidos e retornos protocolares.
Em determinado momento, parei
numa esquina. Abri a bolsa e peguei o maço de cigarros que havia comprado
naquela manhã. Foi um gesto automático. Ted apenas me olhou, sem dizer uma
palavra. Fiquei ali, tragando devagar. Ele se encostou em mim e segurou minha
mão com a ponta dos dedos, mantendo-se em silêncio. Esse silêncio foi o
primeiro gesto de cuidado do dia.
Guardei o maço depois de alguns
minutos e joguei a bituca num cesto de lixo próximo. Ted colocou a mão no meu
ombro e eu entendi, sem palavras, que ele queria me tranquilizar. A mão dele,
quente e breve, era um sinal de que eu ainda tinha um resguardo fora daquela
casa.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

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