Após entregar mais um currículo e
tomar um pouco de café, Ted sugeriu que sentássemos um pouco antes de eu voltar
para casa. Tirei outro cigarro do maço. Ted observava cada um dos meus
movimentos. Seus olhos me viam exatamente como eu era naquele instante: a forma
como o segurava entre os dedos, como aproximava o isqueiro, como inspirava
lentamente. Seu olhar seguia a fumaça que se dissipava no ar da tarde.
Minha próxima tragada foi ainda
mais deliberada. Levei o cigarro aos lábios novamente, desta vez mais devagar,
e vi seus olhos acompanhando o movimento. Quando terminei, apaguei a ponta no
chão e olhei para ele. Sua expressão estava serena, como se aquele momento
fosse suficiente para salvá-lo de um dia inteiro de ruídos. Devolvi um sorriso
leve e o abracei, dizendo que precisava ir.
Caminhei algumas quadras em
silêncio. Aos poucos, senti o peso do maço na bolsa. Cada passo lembrava o
gosto seco da fumaça ainda preso na minha garganta. Minha mão se mexeu sozinha,
tateando o papel; puxei o cigarro, que escorregou entre meus dedos.
Por um momento, levei-o aos
lábios. Meu corpo inteiro esperava o fogo do isqueiro, o calor que trazia
alívio. A tentação era doce, esperando a fumaça devolver algo que eu estava
começando a perder. Mas logo a imagem apareceu: meu pai abrindo a porta, minha
mãe sentindo o cheiro, os dois me olhando. Para eles, eu era outra pessoa. A
dor do tapa veio junto. Tive medo de me viciar, de me perder de vez.
Não queria mais. Não podia.
Fechei os olhos e respirei fundo.
A vergonha. A sensação de estar presa, sem saída. Não, eu não seria aquela
pessoa. Parei ao lado da lixeira mais próxima. Tirei o maço de Marlboro
vermelho, quase intacto, e o enfiei no cesto.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

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