O som da melodia infantil
persistia, infiltrando-se pelas frestas do quarto. Ambas permanecíamos imóveis,
aprisionadas e sufocadas em uma recusa a silenciar completamente, até que a
nota final soou metálica e curta, morrendo com a mola partida. Foi então que a
realidade exterior irrompeu, violenta e abrupta, na forma de três batidas secas
na porta. Eram firmes, medidas, carregadas de uma autoridade que não admitia
questionamento.
Senti cada impacto nos meus
ossos, arrastando-me de volta. O som preencheu o quarto, mas eu mal o
registrei; parecia distante, abafado. A batida não deixava dúvidas: era o
ritual doméstico da autoridade paterna. Logo em seguida, o chamado da minha mãe
soou mais ameaçador do que qualquer grito.
Nem me mexi. Permaneci sentada no
colchão sem lençóis, o edredom caído no chão e a roupa impregnada com fumaça do cigarro. As vozes, antes um murmúrio indistinto, começaram a se infiltrar pela
fresta da porta; cada palavra era o elo frio de uma corrente que se apertava ao
meu redor.
— Joyce? — A voz do meu pai, filtrada pela madeira, era mais uma pressão atmosférica do que um som. — Abra esta porta. Agora.
Meu corpo, pesado e inerte, recusava-se a obedecer. Meus olhos, vermelhos e secos, fitavam a maçaneta, antevendo o momento em que ela giraria.
— Estamos preocupados — a voz da minha mãe seguiu-se, envenenada por um fio de ansiedade. — Você sumiu. Saiu com o carro sem dizer uma palavra. Não fazemos ideia de onde você esteve. Precisamos saber o que aconteceu.
Preocupados. A ironia da palavra estilhaçou o pouco que restava de mim.
A maçaneta girou. A chave, é claro, nunca esteve lá. Eles a haviam retirado.
A porta abriu-se apenas o suficiente para revelar seus rostos. Eles preencheram o vão, bloquearam a luz do corredor, duas silhuetas sólidas e definidas contra a fluidez informe do meu colapso. A mãe, de olhos arregalados, percorreu o quarto num exame rápido e apreensivo, buscando sinais de dano, de ruptura, de qualquer coisa que não fosse a filha polida que conhecia.
— Meu Deus, Joyce! — Minha mãe observou a cama desfeita, as bonecas espalhadas. — O que aconteceu aqui?
Eu estava ali, mas, ao mesmo tempo, em lugar nenhum. A voz dela continuou, agora mais próxima, perguntando por que eu saíra com o carro sem pedir permissão, preocupada na verdade consigo mesma.
Quando comentou que moças direitas não costumam desaparecer assim, meu pai reprimiu um sorriso de escárnio. Senti uma nódoa formar-se, impedindo-me de controlar a respiração.
As palavras enfiaram-se nas minhas entranhas e puxaram para fora tudo o que eu tinha tentado esconder: a camiseta do Ted, o bar, o cigarro, a sensação de me oferecer em pedaços.
O ar escapou-me dos pulmões. Os olhos marejaram, não de lágrimas, mas do reflexo involuntário da asfixia.
Não respondi. Fiquei olhando para o teto.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."
Joyce, quero comentar, mas não sei o que dizer.
ResponderExcluir"A maçaneta girou. A chave, é claro, nunca esteve lá. Eles a haviam retirado."
Forte. Simplesmente forte demais.
Nossa, Joyce, quando o lugar fica tão invasivo que nem a chave da porta é mais sua, o cérebro entra mesmo em modo de sobrevivência. Esse olhar fixo no teto e a falta de ar não são falta de vontade; é o corpo tentando aguentar uma dor. Você foi brilhante (e doeu ler) quando falou do momento em que a gente se retira para não ser destruída. Um abraço apertado!
ResponderExcluir❤️❤️❤️❤️❤️
ResponderExcluir