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Cai o Pano: A Descoberta dos Pais (03)

Caminhei até a janela e puxei a cortina. Abri o vidro com cautela, testando cada milímetro para evitar o rangido que me denunciaria. Na bolsa, o maço amassado. Um isqueiro, um estalo. A chama tocou o tabaco, e o alívio veio na fumaça densa, envenenando o ar.

Lá fora, o mundo continuava, indiferente. Indivíduos carregando suas próprias rotas de angústia e fuga. A cidade, um organismo pulsante, era algo que eu invejava. Seu silêncio era uma presença fria, amplificado pelo concreto e pelo rigor impessoal das linhas retas que definiam aquele lugar.

Traguei devagar, deixando a fumaça descer. Cada fio que escapava pelos lábios parecia devolver ao corpo algo que o rito familiar havia sugado. Eu observava as fachadas iluminadas, inventando vidas alheias nas sombras passageiras para não pensar demais na minha.

O ar noturno invadia o quarto, desviando a expiração suspensa.

Levei o cigarro aos lábios outra vez. O sabor forte invadiu minha boca, espalhando um formigamento libertino que deslizava pela garganta. Fechei os olhos por um instante, sentindo a pele exposta à brisa, um convite silencioso para me perder naquela sensação delicada.

Meu olhar caiu sobre o celular. A tela estava escura, um retângulo negro de possibilidades adiadas. Ted. A mensagem ainda estava lá, intacta. “Por que você foi trabalhar com a minha camiseta?” Esse espanto era exatamente o que eu queria. Era uma demarcação de território. Um lembrete sutil de que carregava uma parte dele, uma prova de que a noite não pertencia somente a ele. Era uma corda que ele jogara, e eu a puxei, ansiosa para ser arrastada para fora daquele quarto, daquela vida.

Mas ali, na solidão pós-performance, uma pergunta insurgente começou a brotar, frágil e tenaz: e se eu não puxasse? E se a corda apodrecesse?

O cigarro chegou ao fim. Apertei a brasa contra o parapeito frio da janela, extinguindo-a com um som seco.

O resquício de uma sombra branca de partículas suspensas de carbono e alcatrão me envolvia, e o seu cheiro acre ainda me deliciava. Meus pés me levaram até o espelho. Aproximei-me devagar, sentindo a pele arrepiada, o frio do chão, o reflexo sedutor. Toquei os próprios lábios com a ponta dos dedos, tentando resgatar neles o gosto de outra boca, o arrepio na pele, os lábios entreabertos, o peito arfante.

O espectro da voz da minha mãe cortou o remanso: um murmúrio vindo do corredor vazio, do seu quarto. Tapei os ouvidos por um instante para silenciá-la, para ouvir melhor a pulsação que vinha de dentro. A luz escassa do quarto passou a revelar meus traços: uma estranha com olhos vermelhos, pele pálida e tensa, cabelos levemente despenteados, alguém que respirava no meu lugar.

Levei os dedos à superfície gelada do espelho, tocando o reflexo dos meus lábios. Naquele contato, um impulso percorreu-me. Era o desejo de possuir aquele pedaço de escuridão só para mim.

Fiquei parada, observando o espelho, a respiração presa. Apertei os dedos contra a madeira da cômoda até as juntas doerem.

As bailarinas girando no dossel, trancadas na escuridão, teriam que dançar sua melodia quebrada até o fim.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Que coragem, após tudo isso ainda fumar no quarto, não pensou no risco, eles nunca perceberam?

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    Respostas
    1. Eu estava em colapso; acho que torcia para que a mola arrebentasse.

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  2. A parte de vc tocando o espelho com o gosto do tabaco ainda na boca me deu um arrepio aki. vc descreve o prazer do cigarro de um jeito q parece q eu to sentindo

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  3. "um convite silencioso para me perder naquela sensação delicada" Joyce você me entende!

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  4. A forma como você descreve as sensações, a luz, o toque, os sons, faz a gente mergulhar fundo na sua mente. Parece que você está conseguindo enxergar com clareza os fios dessas cordas que te prendiam a tantas expectativas e vícios.

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  5. "O sabor forte invadiu minha boca, espalhando um formigamento libertino que deslizava pela garganta."
    Você sabe o que eu sinto rsrsrsrs

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