Caminhei até a janela e puxei a
cortina. Abri o vidro com cautela, testando cada milímetro para evitar o
rangido que me denunciaria. Na bolsa, o maço amassado. Um isqueiro, um estalo.
A chama tocou o tabaco, e o alívio veio na fumaça densa, envenenando o ar.
Lá fora, o mundo continuava,
indiferente. Indivíduos carregando suas próprias rotas de angústia e fuga. A
cidade, um organismo pulsante, era algo que eu invejava. Seu silêncio era uma
presença fria, amplificado pelo concreto e pelo rigor impessoal das linhas
retas que definiam aquele lugar.
Traguei devagar, deixando a
fumaça descer. Cada fio que escapava pelos lábios parecia devolver ao corpo
algo que o rito familiar havia sugado. Eu observava as fachadas
iluminadas, inventando vidas alheias nas sombras passageiras para não pensar demais
na minha.
O ar noturno invadia o quarto,
desviando a expiração suspensa.
Levei o cigarro aos lábios outra
vez. O sabor forte invadiu minha boca, espalhando um formigamento libertino que
deslizava pela garganta. Fechei os olhos por um instante, sentindo a pele
exposta à brisa, um convite silencioso para me perder naquela sensação
delicada.
Meu olhar caiu sobre o celular. A
tela estava escura, um retângulo negro de possibilidades adiadas. Ted. A
mensagem ainda estava lá, intacta. “Por que você foi trabalhar com a minha
camiseta?” Esse espanto era exatamente o que eu queria. Era uma demarcação de
território. Um lembrete sutil de que carregava uma parte dele, uma prova de que
a noite não pertencia somente a ele. Era uma corda que ele jogara, e eu a
puxei, ansiosa para ser arrastada para fora daquele quarto, daquela vida.
Mas ali, na solidão
pós-performance, uma pergunta insurgente começou a brotar, frágil e tenaz: e se
eu não puxasse? E se a corda apodrecesse?
O cigarro chegou ao fim. Apertei
a brasa contra o parapeito frio da janela, extinguindo-a com um som seco.
O resquício de uma sombra branca
de partículas suspensas de carbono e alcatrão me envolvia, e o seu cheiro acre
ainda me deliciava. Meus pés me levaram até o espelho. Aproximei-me devagar,
sentindo a pele arrepiada, o frio do chão, o reflexo sedutor. Toquei os
próprios lábios com a ponta dos dedos, tentando resgatar neles o gosto de outra
boca, o arrepio na pele, os lábios entreabertos, o peito arfante.
O espectro da voz da minha mãe
cortou o remanso: um murmúrio vindo do corredor vazio, do seu quarto. Tapei os
ouvidos por um instante para silenciá-la, para ouvir melhor a pulsação que
vinha de dentro. A luz escassa do quarto passou a revelar meus traços: uma
estranha com olhos vermelhos, pele pálida e tensa, cabelos levemente
despenteados, alguém que respirava no meu lugar.
Levei os dedos à superfície
gelada do espelho, tocando o reflexo dos meus lábios. Naquele contato, um
impulso percorreu-me. Era o desejo de possuir aquele pedaço de escuridão só
para mim.
Fiquei parada, observando o
espelho, a respiração presa. Apertei os dedos contra a madeira da cômoda até as
juntas doerem.
As bailarinas girando no dossel, trancadas na escuridão, teriam que dançar sua melodia quebrada até o fim.

Que coragem, após tudo isso ainda fumar no quarto, não pensou no risco, eles nunca perceberam?
ResponderExcluirEu estava em colapso; acho que torcia para que a mola arrebentasse.
ExcluirA parte de vc tocando o espelho com o gosto do tabaco ainda na boca me deu um arrepio aki. vc descreve o prazer do cigarro de um jeito q parece q eu to sentindo
ResponderExcluir"um convite silencioso para me perder naquela sensação delicada" Joyce você me entende!
ResponderExcluirA forma como você descreve as sensações, a luz, o toque, os sons, faz a gente mergulhar fundo na sua mente. Parece que você está conseguindo enxergar com clareza os fios dessas cordas que te prendiam a tantas expectativas e vícios.
ResponderExcluir"O sabor forte invadiu minha boca, espalhando um formigamento libertino que deslizava pela garganta."
ResponderExcluirVocê sabe o que eu sinto rsrsrsrs