A manhã seguinte veio acompanhada
de uma ressaca existencial. A casa permaneceu ali, muda, um reflexo
simultaneamente íntimo e estrangeiro. No espelho, algo de insuportável na
constatação de que o corpo já falava antes de mim, que meus gestos, roupas e silêncios
haviam se tornado declarações involuntárias.
O café da manhã foi um ritual
silente. O som da faca de minha mãe contra o prato. O silêncio expectante de
meu pai. Eu pensava na palavra "preocupação", mal utilizada por eles.
O que temiam não era minha perda, mas o desvio do papel que haviam escrito para
mim. Não buscavam saber quem eu era, mas garantir que eu permanecesse legível
dentro da farsa familiar.
Na rua, tudo parecia normal. Não
havia nenhum acidente, nenhuma notícia importante, nenhum acontecimento que
explicasse a imensidão que se acumulava à minha volta.
No ônibus, encostei a testa
contra a janela. Os rostos de sempre diminuíam o passo e trocavam olhares. Eu
não precisava ouvir seus sussurros para perceber que falavam de mim. Seus julgamentos vertiam, invadindo meu assento.
Sabia que Ted logo entraria e me
perguntaria por que eu tinha usado a sua camiseta. A ironia era que ele havia
desejado justamente por esse excesso que agora transbordava, mas esperou que a
inundação fosse discreta.
Era isso o que me restava, essa
exigência de todos ao meu redor para que eu fosse menos. Menos barulhenta,
menos visível, menos desejante, menos inconveniente.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Agora ninguém segura rsrsrs 🥳🥳🥳
ResponderExcluirComo diz Gabriel, o Pensador: Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá.
ResponderExcluirO final me acertou em cheio. Essa cobrança constante para ser “menos” é exaustiva. Menos para caber, menos para não incomodar, menos para continuar sendo aceito.
ResponderExcluirjá senti isso de achar que todo mundo tá te olhando mesmo sabendo que provavelmente não tá.
ResponderExcluir