Ao chegar à casa, liguei para
Ted. Ele abriu a porta com um espanto discreto, sem entender por que eu estava
tão leve, com roupas frescas e quase nada nas mãos. Apenas sorri. Em resposta,
ele me deu um sorriso nervoso que achei encantador.
Ele me conduziu pela residência,
mostrando cada cômodo. Eu apenas o seguia, absorvendo cada detalhe: a lâmpada
nua, a toalha esquecida sobre o tanque, o chinelo solitário no canto da sala.
Então, ele me mostrou uma fotografia restaurada e colorizada, em uma moldura de
madeira rústica. Disse que era a única foto de seu pai na infância, tão pequeno
que a espingarda ao seu lado parecia ser bem maior do que ele. A imagem, tirada
em alguma roça, mostrava o menino sobre a grama, em frente a um Ford 1930. Ao
lado, havia outro porta-retrato, esse de Ted, com apenas cinco meses. Todo
fofinho, com um sorriso que não cabia no rosto.
Havia algo de íntimo naquele
tour, algo que transformava uma simples visita em um elo de conhecimento mútuo.
Ele me guiou até seu quarto, uma
edícula nos fundos da casa principal. Era um espaço pequeno e organizado, mas
ao mesmo tempo bonito e aconchegante. A primeira coisa que notei foi a linda
biblioteca, montada em uma estante de madeira com portas de vidro. Ele explicou
que a comprou em uma loja de móveis usados e a reformou por conta própria.
Na parte superior, um toca-discos e uma pequena coleção de vinis entregavam seu gosto musical. Em frente, uma mesa de trabalho, reaproveitada da antiga mesa da cozinha, me fez pensar na minha pequena escrivaninha. Na parede, uma grande televisão estava conectada a um videogame de última geração. Nada de antena, apenas sinal de internet, ele salientou.
Era um quarto, um escritório e um banheiro: seu próprio espaço, um contraste gritante com minha falta de intimidade em casa.
Diante da cama de madeira maciça e do quebra-cabeça de A Escola de Atenas na parede, não hesitei. Retirei o maço de cigarros do bolso do vestido.

Essa descrição da padaria como um 'ádito onde pecados menores eram vendidos' foi otima. Quem nunca saiu de casa fingindo uma caminhada inocente para viver um grande segredo? Fiquei aqui imaginando o que passou pela cabeça do Ted quando você puxou o maço de cigarros.
ResponderExcluirO contraste entre a liberdade do quarto dele e a sua falta de intimidade em casa é a parte que mais explica o texto. Você descreveu os objetos com uma precisão que faz a gente entender a personalidade do Ted sem que você precise explicar muito.
ResponderExcluirTem uma tensão e, ao mesmo tempo, uma doçura nessa sua narrativa. A gente sente a sua pressa de viver. Onde tem um maço de Marlboro tem uma história. rsrsrs
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