Faltava um vidro na porta do
hotel. No lugar, um papelão preso com fita adesiva tentava conter o calor úmido
da rua do ar viciado do saguão.
A mulher atrás do balcão parecia
a vasta encarnação física do lugar. Seu pesado corpo se derramava sobre a
superfície de fórmica; marcado por cicatrizes e os fantasmas de corpos quentes.
O rosto, um mapa de veias finas e sulcos profundos; não sugeria idade, mas um
acúmulo de horas estagnadas. Seus olhos, pequenos e brilhantes, me avaliaram
com um cansaço que dispensava qualquer julgamento moral. Era o olhar de quem já
tinha visto todas as versões daquela cena.
O balcão baixo, a lâmpada
amarelada tremendo no teto, o cigarro queimando no cinzeiro. Nada além do
necessário era perguntado.
Pedi um quarto e avisei
que Ted chegaria no dia seguinte. A mulher apenas assentiu, o movimento do
queixo formando ondulações na pele. A mão curta, com unhas descascadas,
empurrou a chave pelo balcão.
Subi pela escada estreita. Cada
degrau exibia uma película de pó entranhada nos vincos do cimento.
Abri a porta do quarto; o trinco
soltou um estalo metálico. O local era acanhado: cama com colchão afundado no
centro, lençol desbotado, criado-mudo rachado. Uma cortina fina tentava
encobrir a janela minúscula, por onde a luz da rua entrava.
O cobertor de poliéster áspero
estava dobrado sobre uma cadeira no canto. Na parede oposta, uma televisão de
tubo, pequena e pesada, com botões analógicos, refletia minha imagem.
Sentei na cama. A espuma cedeu de
modo irregular, o lençol raspou contra a pele. No criado-mudo, um cinzeiro.
Toquei a madeira descascada do móvel; a textura me devolveu uma lembrança sem
nome, algo entre abrigo e abandono.
A sacola ficou no chão,
inclinada, ameaçando tombar. O quarto inteiro me observava, esperando que eu me
deitasse. Naquele momento, eu não era uma pessoa; era apenas mais um corpo
encaixado temporariamente naquele sistema de objetos pré-fabricados para o
anonimato.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

É impressionante como você consegue transmitir essa sensação de anonimato. Um corpo encaixado temporariamente num sistema de objetos. Essa frase descreve exatamente como a gente se sente em certas fases da vida, como se fôssemos apenas uma peça de reposição no mundo.
ResponderExcluirVocê escreve com uma crueza que lembra muito a literatura beat.
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