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Cai o Pano (33)

Faltava um vidro na porta do hotel. No lugar, um papelão preso com fita adesiva tentava conter o calor úmido da rua do ar viciado do saguão.

A mulher atrás do balcão parecia a vasta encarnação física do lugar. Seu pesado corpo se derramava sobre a superfície de fórmica; marcado por cicatrizes e os fantasmas de corpos quentes. O rosto, um mapa de veias finas e sulcos profundos; não sugeria idade, mas um acúmulo de horas estagnadas. Seus olhos, pequenos e brilhantes, me avaliaram com um cansaço que dispensava qualquer julgamento moral. Era o olhar de quem já tinha visto todas as versões daquela cena.

O balcão baixo, a lâmpada amarelada tremendo no teto, o cigarro queimando no cinzeiro. Nada além do necessário era perguntado.

Pedi um quarto e avisei que Ted chegaria no dia seguinte. A mulher apenas assentiu, o movimento do queixo formando ondulações na pele. A mão curta, com unhas descascadas, empurrou a chave pelo balcão.

Subi pela escada estreita. Cada degrau exibia uma película de pó entranhada nos vincos do cimento.

Abri a porta do quarto; o trinco soltou um estalo metálico. O local era acanhado: cama com colchão afundado no centro, lençol desbotado, criado-mudo rachado. Uma cortina fina tentava encobrir a janela minúscula, por onde a luz da rua entrava.

O cobertor de poliéster áspero estava dobrado sobre uma cadeira no canto. Na parede oposta, uma televisão de tubo, pequena e pesada, com botões analógicos, refletia minha imagem.

Sentei na cama. A espuma cedeu de modo irregular, o lençol raspou contra a pele. No criado-mudo, um cinzeiro. Toquei a madeira descascada do móvel; a textura me devolveu uma lembrança sem nome, algo entre abrigo e abandono.

A sacola ficou no chão, inclinada, ameaçando tombar. O quarto inteiro me observava, esperando que eu me deitasse. Naquele momento, eu não era uma pessoa; era apenas mais um corpo encaixado temporariamente naquele sistema de objetos pré-fabricados para o anonimato.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. É impressionante como você consegue transmitir essa sensação de anonimato. Um corpo encaixado temporariamente num sistema de objetos. Essa frase descreve exatamente como a gente se sente em certas fases da vida, como se fôssemos apenas uma peça de reposição no mundo.

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  2. Você escreve com uma crueza que lembra muito a literatura beat.

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